7.10.09

Não digas


Não digas até amanhã,
Uma vez chega, por favor.
Não digas adeus, não o sussurres se quer,
Deixa-te estar entre os suspiros sonhados.
Canto-te canções de embalar, se quiseres,
Canto-te cantos de amor, até que percas o medo.
Eu não quero dormir, não quero partir.
Não digas até amanhã.

Não sigas o passado,
Não te percas no futuro.
O passado não existe mais,
E o futuro ainda não chegou.
Observando profundamente a vida como ela é,
Aqui e agora, é que permanecemos equilibrados e livres...
Não digas até amanhã
Até porque o Universo,
Escolhe quem vamos encontrar na vida
E são as atitudes que decidem quem fica
E quem sai.

Tu entraste e não sairás nunca mais.
Ficarás para sempre numa eternidade,
Que é só nossa.

Entre-momentos


Gostava de escrever uma ode às nossas estimadas solidões,
Se não fossem estas sinónimo de uma difícil plenitude.
Cada vez mais desejo apanhar o pensamento
Quando ele acontece.
E quando isso acontece,
Gera-se um efeito que imagino similar
Ao surfar dentro de uma onda.
A paisagem é uma multiplicidade de pontos numerados
Que temos de ir ligando.
E quando se pensa
Reconhecer o desenho, ele muda.
Mas aqui ninguém nos ouve,
E posso dizer que o truque está em entrar nesses
Entre-momentos, quando um desenho deixa de parecer
Uma coisa e ainda não parece outra.
Conquista o agora, contaminámo-lo com a mestria
Das nossas dúvidas.
Seremos vírus de nós próprios.

11 dias


11 dias.
Conto cada um
Na esperança de que seja o último.
Anseio-te cada dia
Mais do que no anterior.

11 dias
Para te reencontrar,
11 dias
De uma eternidade
Que já passou.
11 dias,
Para te abraçar
E reafirmar a certeza
De que te amo,
Mais do que a vida.

14.9.09

Carícia


A palavra para hoje é resistir. Aprender com o tutano dos antigos carvalhos, absorto à passagem do tempo, sem nunca deixar de lhe sentir a carícia e escolher pensar serem os dedos de um sonho recorrente com medo de ficar sozinho. Já fui poética terra. Hoje sou forte madeira. Amanhã serei água invencível.

Daqui nada se leva.

Por entre insuspeitos obstáculos ao olhar,
insinuam-se surpresas às quais se tem de sorrir.
Nada se leva daqui, senão vislumbres e micro-perfeições.
Começa então o trabalho do pensamento, da imaginação,
para completar os espaços e tempos em falta.
E sorri-se, sorri-se com estes jogos de possibilidades,
com a facilidade em criá-los
e a felicidade com que eles retribuem.

Poema de domingo escrito segunda-feira.

Desprovido. Sempre o mesmo olhar em volta sem nada ver
ou o tudo ver distorcido. E isto é exterior ou interior?
Não te rias nunca do que não consegues compreender.
E se aprender não é a tua cena, força-te à hibernação.
A próxima primavera trará pelo menos novos cheiros,
novos sentidos, toda a verdade feita ilusão
de tudo estar finalmente bem.
E assim se pode viver toda uma vida.

29.7.09

Palavra

Amo-te.
Mas o amor não cabe todo numa palavra.
Não há palavras.
E tu sabes.

1.7.09

Amanhã como hoje.

Amo-te, assim, na inexistência física de ti, na ausência permanente que me assola.
Mas amar, é muito mais que tudo isso.
É a sublime forma de querer ter a tua alma na minha,
É o egoísmo e a certeza que amanhã serás minha.
Como hoje.

Visita Nocturna

Esperas-me entre as brumas da noite. O corpo treme invadido pela ânsia do regresso às origens. Venho suavemente, como uma brisa de final de tarde, escondo-me por entre as árvores e espreito-te. Deixo que o sol se apague e, antes mesmo que a noite se instale, passo pelos teus cabelos, afagando-os com uma brisa suave. O céu escuro, preenche-se de estrelas e do nada me faço gente, corpo presente. Sentes-me, abraço-te encostando o meu peito às tuas costas. As minhas mãos procuram os contornos suaves da tua pele, desenhando-te colada ao meu corpo. Inalo o teu perfume, que me transporta no tempo, levando-me para lá da eternidade. Deixas-te estar, entregas o teu corpo ao meu, absorvendo cada toque que persegue os teus desejos.
A música solta-se no ar e os corpos comprimem-se num abraço apertado, fusão perfeita de curvas e concavidades que se encaixam como peças de um mesmo corpo. Encontramo-nos por instantes numa mesma dimensão onde os corpos se materializam e os desejos se realizam. Um momento fugaz, roubado à realidade, onde seguramos por um fio invisível o tempo que se pára na ponta dos dedos, permitindo-nos prolongar entre um segundo e o próximo, a nossa própria eternidade.

25.6.09

Estar aqui.

Estar aqui hoje, pensar e sentir desta maneira,
significa o quê, afinal?
A capitulação?
A elevação?
Nada disso. Significa que o tempo passa.
Significa olhar pela janela
e ver as pessoas a passar.
Significa que sentir é agora
e agora tem pouca importância.
Enquanto outros pavoneiam as penas
e gritam longe no bosque,
tu resistes, tu saboreias.
Não, não é temor, é sabor.

Sentir


*

A alma não tem olhos mas vê.
Vê certamente com o nosso coração e àquilo que vê, nós chamamos sentir.
E o sentir sustenta-nos. Mais do que manter-nos vivos, faz-nos viver.

.



*

Enquanto dançamos a nossa música

Os loucos cantam as suas certezas.

20.6.09

Flor


No brilho das cores de uma flor, deixo-te mil segredos por revelar. Entre as letras que te escrevo dia-a-dia, religiosamente, guardo o sentido que apenas a ti entrego, no silêncio da noite, por entre serra e mar, por entre a terra e o ar. As saudades estendem-se pela imensidão do oceano e, a ausência deixa-me a alma sombria, mas a esperança de que o regresso seja apenas questão de um segundo, dá-me o alento necessário para fazer brotar da profundidade dos sentidos as palavras que te alimentam, na distância. Os perfumes que mesclo, entre essências de vida, tentando reciar a formula mágica que me levará de corpo e alma para o teu mundo, exalam o gosto da tua pele, qual pétala desta flor que te ofereço. O teu corpo longíncuo, envia-me, em cada segundo o pulsar do teu coração, a tua alma, dentro da minha, traduz as letras que te emprestam para me escreveres, desencriptando os sentimentos que nelas embrulhaste com a seda do teu pensamento. Espero todas as noites e, de dia, contemplo esta flor sabendo que existes em mim como ela existe neste jardim secreto onde tu caminhas na beleza das noites e repousas no brilho dos dias, deixando o tempo passar, reduzindo as horas a segundos para que a saudade te comporte.

(Em) Noite de estreia



Baixou o pano. Voltei a ser eu. Eu feliz. Eu realizado. Eu com saudades tuas. Percorri aqueles corredores com um objectivo: o de te encontrar, o de te abraçar e o de me abraçares...sentires como foi importante estares ali, como a tua presença torna tudo mais fácil. Entre aclamações, palavras, flores e abraços amigos faltava-me o equilíbrio, a certeza. Entrei no camarim. Média-luz. E ali estavas tu. Tranquei a porta. Abraçamo-nos com uma força desenvolta e tive a certeza que estavas tão feliz como eu. De poucas palavras apenas te queria olhar nos olhos, observar a tua beleza e banhar-me na calmaria que me ofereces. Susurrei-te ao ouvido...e, então a penumbra invadiu o espaço, o perfume do incenso subiu em espirais de fumo suave e, a luz das luzes do espelho acesas tremiam agitando com elas as sombras dos nossos corpos já desnudos. Deixei os meus dedos escorrerem como água sobre a tua pele clara, percorrendo como o vento, cada curva, cada detalhe teu. A minha boca, deixou escapar a língua que pousou sobre o teu peito, desenhando sobre ti, como se duma tela se tratasse. As minhas mãos abraçaram a curvatura dos teus seios, com a luxúria e o desejo guardado por mil anos. A música tocava tranquila, misturando-se com os perfumes e essências. E ali continuávamos indiferentes à agitação exterior: eramos só nós, tu e eu. Os meus olhos prenderam-se dos teus, que se fecharam para sentir mais profundamente. O teu corpo, colado no meu, estremesseu de saudade, recordando os tempos em que já me tiveste naquele espaço, em que já fomos apenas um e nos amávamos até à exaustão na média-luz da Arte. Senti-te chegar em mim, senti o meu corpo entrar no teu, e a alma dissolver-se na tua como açúcar. Nesse instante, fechei os olhos e juntei-me a ti, para lá dos limites do mundo que apenas os olhos conhecem. Deixei que os sentidos nos levassem numa viagem atrás no tempo. As almas vibraram ao ritmo dos corpos, em expasmos de prazer, e estes, já exaustos, cederam... Suavemente os corações ganharam de novo uma pulsação suave, a música voltou para relaxar e distendê-los, enquanto as almas dançavam sobre o espaço vazio acima deles. Em noite de estreia amei-te, como há muito o tempo não me permitia, com a força da vida que o corpo carrega, com a intensidade da alma que há séculos esperava...por ti! Amo-te.

19.6.09

Corpo in(di)visível


Esta embriaguez de pensamentos consome-me há tantas horas entre mim e ti...

A pele da minha pele é já outra, o corpo do meu corpo ganhou marcas invisiveis. Só eu sei o que carrego quando me carrego: o segredo mais incrível esconde-se aí no pulsar acelerado do meu coração, bem junto à veia que me purifica e alimenta. Não sei como falar de ti sem falar de partidas. De chegadas. De viagens por dentro de mim. De viagens por dentro de ti.

E de lugares quase impossíveis que resgatamos a mapas imaginários, o amor pode ser um bilhete de ida. Sem volta. Elle se donne. A lui. Ele dá-se também e à velocidade do pensamento. Não há nada que me impeça de estar aí. Já.

E entre uma mão e outra sobra apenas esta distância invisível. O nosso é um só corpo. Indivisível: o meu no teu, no meu no teu. Onde começa o meu. Onde acaba o teu. Nem sei se é necessário sabê-lo. ou se é apenas indizível. Talvez tenhamos que inventar um nome. Um outro nome para este amor. Lá fora alguém fala de lugares longe, longe... beijos no cais. Recomendações. Malas. Malas. Malas. A carga toda da vida em malas que nos puxam para o chão. Transporto comigo apenas o que me serve. Para estar contigo basto eu. Para estares comigo bastas tu. Assim mesmo nus. A alma como tecto. Quente regaço. Casa. Casa. Corpo. Indivisível. Invisível. Indizível.


Talvez silêncio



...
Sim, o mais desesperante
Não é querer o impossível.
É não alcançar o possível.

...
Pára de procurar o que não se encontra.
Pára e sente.
Mas sente.
*

23.5.09

Esta palavra saudade.



Nas palavras há silêncios...
Que só o coração consegue ouvir.
Impossível querer-lhe mentir.
Tal como a sombra da Lua,
Redonda, como o teu sorriso,
Quando para mim dançavas, nua.
Murmúrio, pauta de sinfonia inacabada...
Que contém os segredos dos olhares que lhe suplicam:
Dá-me a alegria, do abraço o calor...
O seu perdido sabor...
Tira da minha alma o nada.
No nada que nos separa agora
Cabe lá tudo o que quisermos
Palavras...
Que nos fazem vislumbrar o infinito...
Ir em solto grito.
Ter memórias de casa...
Guardei-as no peito várias vidas, sucessivas...
libertei-as quando te encontrei...
E mesmo no silêncio a ti me
Dei em cada palavra uma asa...
E hoje, sentado entre o espaço da saudade
e o tempo da dor...
Há uma que voltou em voo lento, sozinha
Para o profundo mar do meu olhar...
Mas veio na forma singular: amor.



....Então, inventámos uma só palavra que define com doçura e encanto a improbabilidade universal de dois corpos se voltarem a encontrar com a mesma intensidade da Luz - a Saudade...
Somos apenas almas que gerem com maior ou menor perícia essa saudade doída. A ausência é uma saudade arrefecida, uma saudade que nos faz ter tempo para recuar e olhar para dentro.
Dizem que o tempo cura. É mentira. A Saudade não. Nada a cura. Não sobra tempo para nada, porque todo o tempo do mundo pertence-lhe.
E eu olho esse tempo da Saudade e, devagarinho, encosto-me à memória das coisas boas, como a luz do teu olhar, sempre que alongávamos a vista pelas ondas altas de espuma a rebentarem do outro lado da janela.
E é no tempo que roubo à saudade que digo que te amo. Assim, com toda a simplicidade. Ainda que não me ouças...

12.5.09

Paraíso



É quando lembro o teu olhar, o teu sorriso. Acontece como uma carícia quando menos se espera. Por isso, mesmo quando não estamos juntos, estamos juntos. Não existe arco-íris entre nós mas caminhamos sobre ele, onde a única ausência é a da vertigem, pois o mundo está tão lá em baixo que aqui, à nossa volta, nada mais existe do que cor e nuvens. Alguma vez tive medo? Pergunto eu. Algumas vez não foi assim? A capacidade de esquecer dilui-se na capacidade de lembrar. E lembra-se o agora, de mãos dadas. Juntos aprendemos a capacidade de deixar de pensar.

4.5.09

Perdição em Bali


Sei que inventamos um novo léxico,
Para sussurrar uma existência,
Fora do tempo.
A construção da linguagem,
Faz-se de seda,
Abraços de casulo!

Quem de nós recebe a palavra,
Como consagração das horas?
Quem?
Eu e tu?
Agora pronuncio-te lenta,
Lentamente.
Fazendo ressoar em mim,
Cada som que é o mais pequenino,
Lugar do teu corpo.
Um mapa que reconstruo,
Por dentro dos meus olhos.
São os percursos do desejo.
As rotas de seda.
(A foto...só para ti que a entendes!)

1.5.09

Página



Hoje vens.
Sinto a tua falta.
As minhas mãos carecem do teu corpo.

Vamos ser nós outra vez?
Não suporto este vazio de coisas comuns,
Esta falta dessa terra fecunda: o teu ventre,
Onde sulcas em mim a certeza de existir.

É. Eu também não sei se sou ou não sou,
Na ausência de ti.
Apenas imagino o teu nome despir-se,
Como se fosse a minha geneologia.
Sem ti, a minha história também se dissolve.
Rasga uma das tuas páginas e crava-a em mim.

30.4.09

Sorriso


Sorriso!
É lá que te encontro!
É inevitável!


Sempre que te lembro,
Sorrio!
E sinto-me abraçado.
Sinto-te!


E nunca te consigo abreviar.
Calo-me para sorrir,
E sorrio para te ter!

28.4.09

Volúpia


Espalham-se as essências nos fumos que cobrem o quarto com uma cortina de nevoeiro. Consome-se a madeira em fogo lento, queimando o incenso. O dia adormece, aos poucos, rasgando o espaço em raios pálidos cor de mel. Sobre a cama, desfolhaste as pétalas da rosa que te dei, eu, como uma prece, sussurrava as palavras mágicas a cada malmequer que deixava cair sobre o soalho.
Deixaste o teu corpo sobre a cama, semi despido, esperando que lhe juntasse o meu, desnudo. Deixamos a música entrar, para nos abraçar os sentidos, quebramos o tempo nos relógios parados sobre a mesa de cabeceira. É o fim do dia, o fim do mundo, o fim da vida. Dentro daquele lugar que é só nosso, ficamos tu e eu, enlaçados num transe voluptuoso. Envoltos nos silêncios que a cada música que termina, fazem calar os gemidos de um prazer reinventado. É noite já, ou será novo, o dia? Não quero saber, se a luz que me ilumina é do Sol, ou da tua alma que se fundiu na minha. Deixo as forças abandonar o corpo e a alma, exausta, cheia de todos os prazeres que me deste, entrega-se, já vencida, a um instante de repouso.

25.4.09

Interrogação sem resposta...


Hoje é 25 de Abril, dia de aclamar a liberdade!
Mas é também o dia em que, de forma sistemática, recordo aquela que foi uma experiência absolutamente marcante da minha vida. Considero que foi essencial para o meu crescimento como homem íntegro e que me fez, na altura, pensar muito naquilo que queria para a minha vida. Acordar e adormecer sempre com a ideia de que aquele poderia ser o último dia, fez-me sonhar com um mundo melhor.
Trinta anos depois, escrevi um livro - "Um Baile de Furriéis" - recordando grande parte de toda essa vivência... Este dia, há 35 anos atrás, parecia um dia igual a tantos outros... nem o facto da emissora oficial não passar outra coisa a não ser música clássica, não haver notícias, nem relatos, nem as vozes que habitualmente nos faziam companhia em horas paradas, proferirem qualquer palavra foi para nós motivo de grande alarido... Só soubemos da Revolução dos Cravos muitos dias depois tal como o inimigo...entretanto, o clima de medo adensou-se muito. Podiamos morrer a qualquer momento, o que seria muito inglório já depois da guerra ter terminado...
Deixo um pequeno excerto desta minha peça de teatro em que o Victor, na verdade, é o personagem que me retrata e o Fernando, o meu companheiro mais próximo de guerra cujo nome real não interessa...


II ACTO
Cena I


(Madrugada, a seguir ao ataque, ainda um amanhecer tímido. Victor e Fernando, que ainda não se deitaram, conversam na messe. O rádio transmite música de intervenção, há copos e garrafas espalhadas nas mesas, as luzes ainda estão acesas, a noite e os acontecimentos, pesam.)


FERNANDO
Ainda penso no que teria acontecido se o Kwena não tivesse dado o alarme. (Vai desligar o rádio) Parece milagre a coincidência, dele ter saído da base mais cedo do que é costume...


VICTOR
Nos dias em que sai! Quando vai à sanzala é para se encontrar com a Maria, ver o bébé e levar mantimentos.


FERNANDO
(Em explosão) Mas aqueles turras de merda não sabem que a guerra acabou, porra?!
Não têm chefes, não têm rádios? É uma cassete que têm na cabeça? "matar...matar...matar..."?!


VICTOR
Tem calma, Fernando...O que é preciso é enfrentar a realidade de uma guerra totalmente nova em que não podemos matar...Só podemos evitar que nos matem! Desde que estejamos preparados...


FERNANDO
(Senta-se) Preparados... Parece que nada te afecta. Como é possível manteres a calma numa situação destas? Não tens medo de morrer?


VICTOR
Todos temos que morrer, mais tarde ou mais cedo. O que acontece é que cada um tem razões para desejar, ser mais tarde ou mais cedo...Depende de como se imagina o futuro...


FERNANDO
Estás a dizer que não tens futuro?!


VICTOR
Não! Todos temos um futuro quando sairmos daqui. Mas será que o meu futuro será aquele que eu quero? Será melhor, a vida que eu vou encontrar, ao deixar esta morte aparente?


FERNANDO
Falas como falaria um morto, se os mortos falassem...


VICTOR
Tens dúvidas? Quando parti de Lisboa, senti que morri, nada mais para mim teve interesse. Nem o teatro... Se ainda reajo, é unicamente por defesa, para que não me afastem deste sono, no qual mergulhei para não pensar no que poderia ter tido, ou no que poderia ter feito... Quem poderia ter conhecido...


FERNANDO
Não é possível que com vinte e três anos penses dessa maneira. Tenho quase a certeza que as pessoas que terias conhecido com esta idade e nos meios onde te movias, não seriam as mais certas para ti...


VICTOR
Essa é boa! Que meios são esses a que te referes? Parece que sabes mais a meu respeito do que eu...


FERNANDO
Não, não é isso...


VICTOR
Ah, deitaste-te a adivinhar! (pausa) Sabes, Fernando, parece-me, que cada vez que conversamos como agora, há sempre qualquer coisa que tu queres dizer, mas que, por qualquer motivo, não o fazes...Fica sempre no ar um gosto a insatisfação, que eu penso que se dilui com o tempo, mas que pelo contrário, aumenta de intensidade em cada encontro seguinte! Queres aproveitar a oportunidade?


FERNANDO
(Verdadeiramente atrapalhado) Não...não é nada disso...(Desliga as luzes) Se houvesse alguma coisa importante para te dizer, já o teria feito...Está a a amanhecer...Isto são realmente suposições...Fundamentadas na tua personalidade, distante, solitária...Meiga....Enfim...Deves concordar que és um pouco diferente de todos nós.


VICTOR
Meigo? Disseste meigo? Tem cuidado... Não será uma palavra fraca para uma pessoa do sexo forte?


FERNANDO
E será que não se consegue ter uma conversa contigo sem que estejas a questionar constantemente o que se diz? Disse meigo e repito, creio que é esse sentimento que anda a confundir a malta, para quem tudo se baseia na agressão, na competitividade e na afirmação do ego machista.


VICTOR
E tu não és excepção...


FERNANDO
Em vários aspectos. Tenho mais instrução, (aproximando-se lentamente) movimento-me em meios onde a compreensão se estabeleceu para certo tipo de pessoas.


VICTOR
O tipo deles ou o meu?


FERNANDO
Pára, Victor. Não te faças de parvo, nem penses que eu o sou...(aproxima-se mais) Pessoas como tu e eu precisam constantemente de ternura, de sentir a mão de alguém e não só os chorrilhos de asneiras que ouvimos dias a fio...Sabes há quanto tempo não saímos daqui, que não ouvimos dizer, "que bom encontrar-te?" (Já junto a ele) Não tens saudades de abraçar alguém?


VICTOR
Tenho (afastando-se) Claro que tenho. Mas todos têm...Ninguém sai daqui há muito tempo.


FERNANDO
Queres dizer que quando vamos à sanzala, sim porque tu também lá vais quando o Capitão o exige, vais com a mesma disposição e finalidade do que nós? Se pensas que eu não sei as voltas que dás para não entrar na cubata da Maria, e do pacto que fizeste com ela para que ninguém desconfiasse de nada, estás enganado, Victor. Podes enganar o Capitão, toda a gente, mas não a mim, que tenho os olhos abertos para essas coisas...


VICTOR
Que estás tu a dizer para aí? Eu já fui com a Maria. Se não vou mais é porque não me apetece, pá! Não tenho necessidade de provar nada a ninguém...Além disso a Maria é casada com o Kwena e eu deixei de lá ir quando o soube. O Capitão não devia indícá-la a ninguém, ela só aceita porque é obrigada e porque tem medo de sofrer com as consequências caso se negue.

FERNANDO
Mas tu foste e segundo te ouvi dizer, gostaste.


VICTOR
(Com amargura) Que querias que dissesse? Que foi a melhor e a pior experiência da minha vida? Ninguém iria compreender o que eu senti quando o Capitão me obrigou a entrar naquele pardieiro...Era o calor...a cegueira total quando se entra no escuro...o cheiro acre e doce que havia no ar. O meu coração batia como se me tivessse perdido na mata e nunca mais fosse encontrar o caminho de regresso. Olhei em volta e, muito a custo, os meus olhos foram-se habituando ao ambiente...só uma pequena fogueira, quase apagada, servia de iluminação àquele pequeno espaço de terra batida. Olhei para os fundos, e lá estava ela...eu mal a via, deitada sobre uma espécie de cama...e nua...Avancei, usando de toda a coragem. Ela mexeu-se e abriu as pernas, como se dissesse: "Vem, é aqui o altar do sacrifício..." Sem deixar de a fixar, começei a despir-me...Tirei a camisa, as botas, baixei as calças...acabei por despi-las também...continuava imóvel. Sentei-me ao seu lado, de frente para ela. Não resisti, acariciei-lhe os seios pequenos e hirtos que me cabiam na mão. Era seda aquela pele, nunca tinha tocado nada igual...A pouco e pouco deitei-me sobre o seu corpo e pensei que me iria abraçar...mas não...os seus braços continuaram estendidos, afastados do corpo indiferente...nessa altura já o seu calor me tirara qualquer inibição com que eu poderia ter entrado ali...(Pausa) Mas nunca os seus braços se moveram...Nunca...a não ser quando do lado da cama irrompeu um choro de bébé, a reivindicar o peito de que eu me tinha apropriado...Mas o prazer já era mais forte que a consciência...e a Maria com o braço na mesma posição, foi embalando o filho, fazendo-me perceber que era assim mesmo, que não tinha importância...até ao fim...A vontade do Capitão era mais importante do que a sua vida...(Pausa)
Como vês, gostei. Gostei de ter percebido como tudo isto funciona, do que precisamos de fazer para sobreviver nesta terra que não é nossa. Por isso este meu ar distante e meigo porque não quero zangar-me ainda mais com o mundo.


FERNANDO
(Depois de uma longa pausa) Já é tarde...daqui a uma hora toca a alvorada. Creio que nos devíamos ir deitar...Hoje vou dormir o dia todo, para ver se me esqueço, por algum tempo, desta merda toda...


20.4.09

Desculpa

Viste-me. Olhaste-me.
Gostavas que te olhasse da mesma maneira.
Vi-te mas não te olhei.
Querias mais.
O mais que nunca te poderei dar.
O mais que não pode ser teu.
O mais que não te pertence.
Desculpa.

15.4.09

Renascer


É no silêncio da noite que me deixo adormecer em pensamentos perdidos num lugar qualquer. Aqui, entre pequenas estrelas e grandes vazios, os meus pensamentos flutuam como penas nas asas dos ventos que sopram de sul. Deixo-me ficar, escutando, cada palavra não pronunciada, cada letra não escrita, procurando tão somente, perceber para onde querem ir, e onde me querem levar. Só, nesta travessia sem gente, onde a multidão se comprime, num espaço vazio, procuro encontrar-me dentro deste nada e deste tudo que sou. Ceifado, como o trigo, deixo-me cair, sobre o manto das estrelas que a noite escura e fria, estende sobre mim, sentindo-me perdido pelo espaço infinito num abraço universal que me faz esquecer as origens e me leva para lá de todos os limites. No silêncio da noite.

11.4.09

Back to reality

De volta à realidade: sem ti.
"Foi melhor do que uma montanha russa!".
Hoje ainda não tenho palavras.
Tu és as minhas palavras.
Disse-tas todas.
Agora apenas te sinto na tua presença já ausente.
Amei-te. Amo-te. Amar-te-ei sempre.

3.4.09

Um Homem da Cidade

Hoje deixo um poema que não é meu mas que muito me diz...





Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.
Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem.

(letra de José Carlos Ary dos Santos)

31.3.09

Saídas de lugar nenhum


(a pedido de uma amiga especial...e dedico-te também!)


As coisas às vezes parecem saídas de lugar nenhum de tão inesperadas que são. E, no entanto, têm todo o sentido. São então a resposta que ninguém já espera. O sonho que se deixou de ter. Pequenos milagres porque incompreensíveis. Como se alguém vigiasse almas ou adivinhasse desejos. Alimento de vida em cores e sabores antecipados servido por mãos invisíveis dum Deus qualquer. É-se feliz pelo instante da dádiva. É-se feliz pela dádiva amizade.

E é quanto basta para avançar com a certeza de que tudo faz sentido. Os lugares passam a ter nomes e gravam-se na memória de quem sente. Pedaço a pedaço a vida faz-se. O momento instala-se e constrói-se presente, mesmo que o passado não o antecipasse. Só a vontade expressa num desejo que tantas vezes se cala e o sonho que não se fez promessa se reconhece então.

Finalmente acredita-se na possibilidade das coisas, mesmo que se pensem impossíveis. Sabe-se dentro de nós que a vida vale a pena com e pela amizade. Mesmo quando parece alhear-se de nós.

28.3.09

Amor num só acto


Tatuo o teu corpo a letras de fogo. Prazer imolado em frases. Sentidos despertos que sublimam a libido num instante em que os corpos distantes se unem no infinito. Devoramos metáforas em doses maciças, incenso disperso pelo quarto que nos acolhe. Gemidos que se calam nas palavras que os desnudam, como senso último de todo o desejo.

Tango a dois corpos dançado, música que embala o destino, cortando o vazio que à volta se condensa, como gotas do suor derramado pelo êxtase dos silêncios consumados. Os meus braços sujeitam o teu corpo desnudo contra o meu, os teus cabelos feitos de ventos soprados passeiam-se pelo espaço e, o brilho dos olhos que vejo são sóis que guiam os meus.

Colho os pedaços da alma como átomos dispersos do teu ser, que moldo em flor de luz e prazer. Ensaio as letras que cantam as músicas nos ritmos que os corpos deixam quando as forças jamais os sujeitam. E ali, perdidos no meio do palco, actores deste belo acto, deixamos abandonados à ausência de público, os corpos, trajes despidos das almas, que partiram para lá de eternidade.

25.3.09

Despertar


Depois de abandonado sobre a cama, o corpo, dorido de um dia intenso, repousa sobre a seda dos lençois. A alma, esvoaça para longe, envolta em sonhos e quiméras, deixando-o ali, abandonado, perdido, vazio de ti.
Sobre o céu escuro da minha noite, as estrelas são sinais que me guiam nesta viagem distante a lado nenhum. Esta alma desprovida de sentidos, segue o caminho infinito da noite escura, procurando-te em cada estrela, tentando descobrir-te em cada galáxia, para que possa regressar e ter fôlego para fazer o corpo que a perdeu, caminhar pela estrada da vida.
Depois dos sonhos, o raiar do dia, chama-me de volta, o corpo, gelado, inanimado, espera-me, com a saudade que o vazio lhe deixou.
Regresso, para um novo despertar, que o dia, dissolvendo a noite, voltará a fustigar, deixando-o exausto, no final de mais um dia.

24.3.09

O meu toque


Olho-te, na profundidade do mar dos teus olhos, sinto-te a alma palpitar. Invado-te, consentes a minha entrada, abrindo-me o corpo, desvendando-me o espírito. As minhas mãos adentram-se na densidade suave dos teus cabelos e a minha boca prova o carmim dos teus lábios húmidos. Deixo os meus olhos abertos e vejo-te na perspectiva de um beijo longo, num instante de intensa proximidade em que os corpos se tocam e as almas se amam.

Na memória guardo a tua imagem, o mar que se mescla com teus cabelos lisos, o olhar que me chama, antes mesmo de me ter visto, o Sol põe-se detrás de ti, adormecendo o dia. Não sabes, mas a Noite espera-te para lá do último raio de luz.
No céu escrevi o teu nome, com as estrelas que agora brilham no teu peito. No vento, que te penteia chamei por ti, numa saudade antecipada, num grito premente. Não te vejo, não te toco, mas sei onde estás, conheço-te como sempre, sinto-te, cada vez mais, minha, como sempre foste, desde o primeiro instante em que brilhaste no meu firmamento.

Universo


Surges das sombras, como reflexo do teu próprio corpo desnudo. Vens, em gestos lentos como a brisa de um sopro de vento. O perfume da tua pele precede-te, como prelúdio de um instante que está para chegar. O fogo da tua alma incendeia o ar que se aquece em ti. A música geme a tua voz que se abraça com as notas fazendo a letra gritar mais alto que o próprio prazer.

Eu, espectador deste momento, quedo-me sentado, esperando pelo meu tempo. Deixo o meu olhar deslizar por todo o teu perfil, com um suave traço de contorno, um risco imaginário com a ponta dos dedos. Apuro os sentidos, retirando ao brilho que ofusca o olhar, o calor que me aquece a pele. Inalo-te, em cada inspiração, como se te houvesses dissolvido na atmosfera.

Quando os corpos se encontram, o Universo recomeça com uma explosão de energias que iluminam o infinito vazio de cor. O tempo começa do zero, como se antes não existisse um único segundo. As bocas calam-se num beijo longo e no olhar nascem as primeiras galáxias, remoinhos de prazer que rodopiam no espaço.


20.3.09

Quem disse que morreu a madrugada?!

(Texto escrito por mim para o prefácio do livro "Nunca ninguém sabe"
de Simone d'Oliveira)



“…Mamã, preciso de vinte escudos para ir à Esplanada.”
Estávamos em 1965. Na Esplanada do Cinema St. António em Faro ia realizar-se mais um espectáculo de variedades e, nessa noite de Verão, o lote de artistas valia a pena não perder. O meu livro de autógrafos tinha de ser honrado com as fotografias e dedicatórias de alguns deles. Desfolhando-o, há um por cada página, fotografias belas e retocadas como só o “Apollo” sabia fazer: Madalena Iglésias, Tony de Matos, Alberto Ribeiro, Jorge Alves, Laura Alves, e estrangeiros como Henrique Morineau, Gigliola Cinquetti (pedida à RAI e recebida por correio), etc., etc., etc.…
Mas essa noite era diferente. Eu iria conhecer pessoalmente a minha intérprete por excelência, aquela voz, aquela força estranha e arrebatadora que ouvia pela rádio, religiosamente e comovido ou no “pick-up”, quando me isolava no quarto, sofrendo problemas, desamores e raivas de adolescente…
Não foi difícil obter os vinte escudos, ainda que ultrapassasse a mesada, pois lá em casa os meus caprichos pró-artísticos sempre foram encarados como normais e muito bem aceites, dado que era bom estudante, e tendo em conta que a minha mãe só não cantou profissionalmente porque o terror dos palcos se apoderou dela em experiências que teve a nível de récitas escolares, e porque o meu pai era autor e actor amador. Eu próprio já tinha começado a pisar o palco do Grupo de Teatro do Círculo Cultural do Algarve, mais tarde Grupo do Teatro Lethes.
“Aqui tens o dinheiro. Só não percebo como é que podes gostar dessa artista. Ainda se fosse o Tony de Matos ou a Madalena…” – disse a minha mãe.
“Só prova que tem bom gosto, o rapaz!” – e mais não disse o meu pai.
Nunca discuti com eles esta minha preferência pela Simone. Desde miúdo que sou muito observador, e não me sobra tempo para conversas estéreis. Os gostos de cada um são para respeitar, e o meu não tinha nada a ver com as opiniões dos meus progenitores. Nem eu próprio saberia explicar naquela altura, porque é que aquela voz e interpretação eram as únicas que me levavam às lágrimas. Só sabia que era assim, daquela forma, que eu queria cantar um dia. Costumo dizer que foi a mais importante professora de canto que tive, sempre atento à sua pronuncia, à divisão das frases, à intenção de cada palavra, ao sentimento que exprime em cada gesto… È que quando a Simone canta, por exemplo, um desgosto de amor, não traduz a humilhação e o masoquismo que a maioria das mulheres sente, mas pelo contrário, é a raiva, o inconformismo e a sobrelevação… que elas não lhe perdoam.
Os homens, pelo contrário, gostam, acham-na uma mulher desafiadora, feminina até dizer “basta”, mas sem ser lamechas nem “barbie” como agora se diz, uma artista intocável, misteriosa, distante, como os grandes artistas devem ser. Uma brilhante jogadora no ténis da vida, numa sociedade onde o court é só para sócios, e nos jogos têm sempre quem lhes apanhe as bolas…
Já tenho pensado que se hoje tivesse aquela idade e dissesse: – “…mãe, preciso de dois mil escudos para ir ao concerto a Alvalade…” – quem é que eu agora iria ver? E só aquele bicho de palco, aquele furacão que arrasta multidões e me faz vibrar da mesma forma, me vem à ideia: Tina Turner.
Fui ao espectáculo e, hoje, passados trinta e sete anos, tenho na minha frente a sua fotografia autografada, e do outro lado do telefone a minha querida amiga e colega Simone:
– “…meu querido Carlos, escreve qualquer coisa para este meu livro, teria muito gosto nisso.”
Não sei se ela terá dito mesmo “este meu livro”. Mas eu quero pensar que este será um dos muitos que o seu talento ditará.
Assim, sem pretender escrever as minhas memórias, resolvi avivar algumas recordações de tempos que deveriam, de qualquer forma ser referência, para progredirmos como seres humanos e não nos deixarmos cair nos mesmos erros. Temos obrigação de reconhecer, estimar, preservar e agradecer a Arte, qualquer que seja a sua expressão, falando de como nos sensibiliza e toca, deixando marcas para o resto das nossas vidas, mesmo que negativamente.
Recuemos um ano. Fevereiro de 1964. Tempo triste para mim.
Ainda hoje lembro e sei aquele fado que me foi ensinado, frase a frase, com um fio de voz fino e fraco, entre delírios, dias de aparentes melhoras e recaídas…
No quarto, deitada, o gato aos pés da cama, eu encostado ao lado na cabeceira, a minha avó ia desfiando aquele rosário de versos do fado do soldado português:

“…é teu dever
Saber morrer como um forte
Não tenhas medo da morte
Pois só se morre uma vez…”

Palhavã, palavra maldita nesse tempo, poucos eram os que iam e voltavam.
Útero…palavra difícil e feia para uma criança que, havia pouco tempo, penetrara timidamente no estudo dos aparelhos respiratórios, digestivo e circulatório.
Porquê tudo aquilo? Para quê tanto sofrimento? Onde estava Deus? De que serviu a catequese até à preserverança, e fazer parte da Irmandade do Carmo? Porquê assistir à missa como menino de coro e todo aquele latim decorado?
“…se a avó melhorar, juro que vamos os dois a Fátima agradecer à Virgem…”
A avó não melhorou e eu jurei que nunca iria a Fátima.
Não vou discutir crenças nem religiões. Por enquanto, ainda continuo a observar como cada um acredita no que acha mais conveniente; sobra-me pouco tempo para conversas…
Pode ser que a Senhora de Fátima tenha feito alguns milagres. Possivelmente aqueles em que nos leva aos médicos certos, que nos receitam os medicamentos certos, ou contemplar-nos com a sorte de descobrir o problema quando ainda se vai a tempo de acabar com ele. De resto, se foi um objecto não identificado que deu três voltas à Cova da Iria como se fosse o Sol, ou não, não discuto, vou observando as teorias… Só lamento é que em 1917 ainda não houvesse “media”, nem satélites para captarem as aparições e divulgarem os milagres…e mais: promoverem os seus protagonistas…Só a Igreja. E mesmo assim, uma das minhas tia-avós que faleceu recentemente com cem anos, continuava convencida de que a descida do homem na lua tinha sido uma grande encenação dos americanos…
Não é que eu esteja tão desumanizado que não tenha momentos de fraqueza como qualquer pessoa, também digo “ai meus Deus”, e benzo-me antes de entrar em cena… O que acontece é que o grau de auto-estima varia em cada um. Acreditarmos em nós como seres racionais, acreditarmos nas nossas capacidades e até, se como dizem as Sagradas Escrituras, fomos criados à semelhança de Deus, é meio caminho andado para se chegar aos objectivos.
Por isso que relevância teve quebrar a jura, e ir a Fátima passados trinta e cinco anos, a pedido da minha mãe, com o pretexto de que não queria morrer sem visitar esse lugar sagrado?...Foi bonita a visita, ela continua viva, e acreditem tal como eu… Já visitou, está visitado.
Lembram-se daquela “Avé Maria do Povo”, que faz parte do repertório da Simone? Escutem-na!
Como a vida, enquanto dura, é uma aprendizagem e armazenamento de conhecimentos constante, devo dizer-lhes que hoje, a minha mãe mudou de opinião sobre a minha cantora de eleição. Quem os meus filhos ama…
Desde “Lado a Lado”, “Sol de Inverno”…a Eduarda…”Fúria de Viver”, “Desfolhada”, o silêncio, a mudança de voz…O Pedro…”Apenas o Meu Povo”…A Eduarda e o Pedro…Os jornais, a televisão, a rádio…O Varela…E o teatro, até à minha estreia no Parque Mayer com a Laura Alves, alguns anos passaram, ela na sua luta pela vida, e eu em estudos, na guerra, na esperança de um dia vir a ser quem sou hoje…este Carlos Quintas de quem, hoje, a Simone faz o favor de ser amiga. Um dos meus momentos mágicos, a entrada num camarim do Teatro ABC, levado pelo saudoso Varela Silva. Estávamos a ensaiar uma peça no Monumental, ele era o encenador e eu revelei-lhe o meu sonho de criança, ser apresentado à Simone…O Varela era daqueles homens capazes de realizar sonhos.
Ainda estava mais bonita do que quando a vi em Faro. O cabelo cobreado, caído em ondas pelos ombros enquadrava o rosto agora magro, esculpido em estilo romano, donde sempre se destacaram aqueles olhos grandes e verdes como dois peixes num aquário de sabedoria e talento.
Como uma Árvore esguia com as raízes bem assentes na terra, disse-me do alto da sua folhagem com uma voz madura: “Olá Carlos, já ouvi falar muito de si. Não deixe que esse senhor o atormente…”
Mais tarde percebi que, o que para muitos resultava um tormento, para mim foi maestria.
Esta era a Simone que eu sempre idealizara, tratando a Vida por tu!
Veio a amizade, o companheirismo, as cantigas, o teatro, algumas tímidas confidências, depois mais, conheci o Pedro e a Eduarda, noites de longas conversas, falou-se de ilusões e desilusões, concretizaram-se projectos…mas nunca consegui tratá-la por tu…ainda hoje.
Se fosse preciso, eu era capaz de continuar a pagar para a ouvir cantar.
Mas um dia…Houve uma pausa…A Árvore desfolhava-se…
A Simone não estava bem…
É nestas alturas que se dá um black-out nos sentidos em que pomos em dúvida donde vimos, para onde vamos ou se vale a pena ser quem somos. Foram dias de angústia, sem saber qual a forma de pôr a engrenagem da vida de novo a funcionar em pleno.
Tentar ajudar…mas como? Não sei se a amizade, a compreensão, o amor, e tudo aquilo que de bom nos rodeia chega para aliviar a consciência e a traição de se ser humano.
E lá vamos nós abrir as gavetinhas da mortal memória…
Recordei a Esplanada em Faro, a minha avó, o gato aos pés da cama, a Senhora de Fátima, o silêncio, o sofrimento, a mudança de voz, a “Ave Maria do Povo”, o encontro no ABC, os “media”, a Eduarda e o Pedro, o Mestre, a amizade, e nada fazia sentido!
Isto pensei eu…mas estava enganado…
“…Que é mais nobre para o espírito: sofrer os dardos e setas de um ultrajante fado, ou tomar armas contra um mar de calamidades para pôr-lhes fim, resistindo?...”*

E eis que a Árvore se ergue de novo, e do alto da sua folhagem diz com a sua voz madura:
“É que não me apetece nada!”
E com “Fúria de Viver” pôs-se “Lado a Lado” com a “Sensatez”, pensou “Começar de Novo”, foi “Degrau em Degrau”, cantou uma “Ave Maria do Povo” e gritou “Glória, Glória Aleluia”, “Quem Disse que Morreu a Madrugada”???!!!



* (Hamlet, W. Shakespeare)

18.3.09

Palhaços do Inferno

Além…
nas densas sombras das portas cerradas
no pranto ciumento das vidraças ala
das danças, sarcástico…
como hoje e no antanho,
pequeno como eu,
do mesmo tamanho.

Além…
onde os muros se agitam perto do fim
e encurtam lugares cá dentro de mim
onde os tectos se descosem da levitação
e calcam alentos de exaltação
onde os ares se refazem a cada minuto
e desprezam arcanjos em estado bruto
onde os brilhos se encobrem num coma de acanho
pequenos como eu,
do mesmo tamanho.

Além…
onde o sustento morre antes dos animais
e secam os líquidos, a água e os demais
onde as flamas mastigam o firmamento
e derretem as cordas do pensamento
onde a morte desbasta as searas de sangue
e tombam os frutos da árvore langue
onde a utopia é um finado do rebanho
pequena como eu,do mesmo tamanho.

Além…
da linhagem dum arlequim terno,
assim são os palhaços do Inferno.
Assinam os nomes num jeito canho,
pequenos como eu,
do mesmo tamanho.

Preciso-te


Preciso de ti. Por nenhuma razão em especial. Apenas por tudo, apenas por nada.
Preciso do teu sorriso, que se te acende no rosto e me ilumina os dias.
Preciso de me encontrar no brilho dos teus olhos faroleiros que me fazem rumar ao cais onde te escondes.

Preciso de ti…

Que te deites ao meu lado e que fiquemos em contemplação perfeita.
Preciso que deites a cabeça sobre o meu peito, preciso de te ouvir gemer o meu nome em doces ecos surdos. Preciso que adormeças no meu colo e que repouses em mim este permanente cansaço.

Preciso de ti…

Porque a minha alma já não me pertence, abandonou-me e habita descaradamente na tua. Preciso que te deites ao meu lado, que me abraces.
Preciso de acordar e de sentir que estás exactamente no mesmo sítio.

Preciso que a forma tome o lugar das letras, contraindo nela a vontade de te expressar.
A vontade de te ver, de te tocar.

17.3.09

Percorro-te


Percorro-te
Na ânsia de beber toda a tua beleza
De afagar os teus contornos.

Não me canso de olhar
Os teus olhos profundos
Que pousam no meu corpo.

Terra nascida do mar,
Sonhei-te para te dar forma
Vivi-te nos ínfimos detalhes.

Amando-te, amei-me a mim mesmo,
Revi-me nas tuas águas,
Encontrei-te nas tuas noites.

Mau caminhante,
Ávido de aventura e sedento de paz,
Banhei-me na calmaria que me ofereces.

Perdido no espaço e no tempo,
Lançado pela minha nave espiritual,
Cai no teu monte mais alto.

Contudo prendes-me,
Esta contradição consome-me,
Este querer ficar e querer partir.

A ti me entrego,
Nunca te dizendo adeus.

Digo: “Amo-te” apenas quando o sinto,
É sempre.

16.3.09

Casa

Deitados na suspensão das estrelas
Num vagar de carícias lentas de luz.
A nossa casa é o domingueiro sentir
Que ao longe nos pacifíca e seduz.

15.3.09

(Re)encontro sem memória


Não me lembro do teu nome…
Não me lembro se o esqueci nas voltas da memória
Ou se nunca mo disseste.
Não me lembro do perímetro da tua história
Ou das cenas que fizeste.
Não me lembro dos traços do teu semblante,
Nem dos odores narcóticos de amante,
Com que, nua, levaste a tua por diante.
Não me lembro do choro ostensivo do jacaré
Que dormiu, nesse corpo de mulher, a meu pés
E maquinou frias ilusões em marcha a ré.
Não me lembro de despegar das paredes imundas
Os ecos das juras mais solenes e profundas
Que ousaste glosar em falas fecundas.
Não me lembro de tactear o teu seio,
Nem da saliva nos beijos de permeio
Nem da volúpia de sangue no sexo molhado
Nem dos suores ardentes do orgasmo arrebatado.

Não me lembro de me lembrar de ti.
Não me lembro do que esqueci.
Não me lembro de me lembrar de ti.
Não me lembro do que não vivi.
Foste tatuagem, carimbo e sinal.
Foste roupagem de um limbo irreal.
Já não sei o que és e foste, afinal,
Se um desejo, um sonho ou um mal.

14.3.09

No chão húmido


Tudo não passa de um rumor incandescente,
Os lampejos de ontem ainda vibram sem fim.
Vieste e foste e eu sem ver gente
Devoto-me ao canto mais recôndito de mim.

Foi aqui, no chão húmido que me ampara,
Que tiraste as vestes da cor do açafrão,
E o teu corpo desnudo em candura de ave rara
Abraçou o meu, com um beijo na mão.

Louco, nas certezas cálidas do coito animal,
Sorvi o alento da paixão não esquecida.
Trouxeste-os em ti, anjo audaz e sensual
E, sem dizeres tua graça, levaste-me contigo.

Agora foste, voltas mas não estás.
Agora fico, vou e ainda sou.
Este pedaço de carne que aqui jaz
É a memória do tempo que me deixou.

Sinto-me a arrefecer…Neste cantinho meu.

A torpe presença do medo


Repugna-me o medo.

Rejeito a forma disforme do seu acinte.

Intentos se quebram na raíz, desfazem-se sem resistência, acobardam-se. Vil intromissão.
Não o chamo. Não o quero. Desminto convenções. Mesmo assim, ele fica. Fita-me com desdém, traz no olhar o escárnio instintivo do logro, rouba-me a integridade. Devolve-me à frívola condição do nada, reduz-me à ínfima dimensão de grão de pó, esmaga-me entre os dedos secos. Relembra-me a contingência da incerteza. Que fazer? Que ser?

Não suporto as risadas insonoras que escuto nas profundezas da memória. Anamneses perturbáveis. Afinal também as há. Derramam-se nas veias, confundem-se no sangue, esquadrinham o corpo e tomam-no de assalto. Suores frios. Inércia inevitável. Inacção. Das sombras de antanho que cobrem o hoje, no exacto instante em que menos convêm, brotam os fluídos que secam os filões de resgate. Não há salvação. O revés anunciado do sempre confirma-se. É evidente. Degrada-me e corrompe-me. Não me mexo mas sinto-o. Está em mim. Eu faço-o, ele desfaz-me. Sou simultaneamente pai e rebento parricida. Perco-me na encruzilhada filial.

Ele cresce com o viço de um imortal. Jamais perecerá. Eu sim, às mãos desse reles parasita. Enoja-me esse invisível monstro asfixiante.

Repugna-me o medo.

13.3.09

Apareceste...



Apareceste-me…

…uma alegoria, uma visão, uma quimera, uma utopia.

Subitamente e de mansinho, vieste silenciosamente para mim. Tudo o que tinha sonhado se concretizou em ti, em tudo o que és, em tudo o que me fazes ser, ver, sentir, perceber. Admiro-te. Adoro-te. Quero-te.

Nas feições do teu rosto de anjo está a candura de uma frágil criança, a brandura de uma nuvem branca, a valentia do pequeno pássaro que aprende a voar, a viveza da planta que brota da semente que jaz na terra. Tens isso tudo em ti! Será que não vês como és perfeita? Tão magistralmente perfeita, tão somente tu. Tu, o teu olhar, o teu sorriso, os teus cabelos, o teu cheiro, o teu gesto, a tua voz, o teu corpo…tu!

Vejo-te sem abrir os olhos, trago-te para o pé de mim.
Preciso de ti. De tudo em ti. De tudo o que és.

É indomável o poder do sentimento. Deixo-me levar porque evocas além do ínfimo eu, porque me mostras sítios insondáveis da alma.

Se as palavras chegarem, se os gestos puderem…
…deixa-me dizer-te…
...que existo para ti…
…que só sou contigo!

Vem e fica. Agora que me apareceste, não vás.

Retrato

Guardo no armário
a fotografia estimada
do ápice do teu semblante.
É justo mostruário
da saudade velada
de uma quimera distante.

12.3.09

Quero estar contigo



Bati a porta. O dia foi longo. A casa revela a minha ausência.
Roupa por arrumar, louça por lavar.
As pressianas ainda abertas mostram-me um dia prestes a acordar.


Mas, indiferente, dirijo-me ao quarto.
Dispo a camisa e visto-me de memória.
De saudade.


Olho os lençois que denunciam o meu pensamento: quero estar contigo.

Viajante




Gosto de lugares claros onde veja o que sinto e sinta o que vejo.

Não gosto de adivinhar nuvens em céus abertos, nem de olhar para além de nevoeiros cerrados. Fico quieto no meu canto e espero que pare o tempo que me tapa a vista e tolda a mente para abrir os olhos e ver de novo.

Com olhos de ver. Em lugares de onde nada se deixa esconder.

Na verdade não gosto dos lugares onde se adivinham coisas que fazem mal à alma.
Ou de sítios onde tenha de alongar os olhos para ver o que me é dado ver sem ter de me esforçar.

Gosto dos lugares onde tudo é límpido e transparente.
Como eu o sou.

Viajo por todos sem medos. De nenhum fujo.
Mas recuso-me a habitar em alguns. Nos escusos, nos dúbios.
Naqueles onde a dúvida se instala. A desconfiança se abate.
Não lhes pertenço. Não são a minha casa. Nem meu pouso.


Não viaja comigo quem gosta de lugares assim.

11.3.09

história sem história




Penso em ti.

Simplesmente.

Irrefutavelmente.

Irremediavelmente.



Levas-me para lá do real,

Fazes-me pensar no impossível

Que é sempre possível.



As lágrimas correm

Porque sim e porque não.

Sem saber porquê.

Apenas sei que és tu.



Tu, que tão pequeno

És tanto.




Eis uma história sem história

Onde a maior história és tu.

Só nós


Chegara! Que sentimento de segurança me invadira naquele momento. Estacionei o carro e suspirei. Fora um suspirar de alívio. Sentia falta daquelas paredes, daquele hábito que todos os dias repetia religiosamente. Fazem-me falta certas banalidades. Saí do carro, retirei as malas e corri pelas escadas. O momento pelo qual aguardara toda a semana estava prestes a acontecer. As chaves, essas, vinham na mão já prontas para abrir a porta, para me transportar para o meu mundo. Entrei, pousei as malas e...pé ante pé, procurei-te. O meu coração tremia, vasculhando cada canto. Os meus olhos deambulavam, percorrendo todo os pormenores, como se aquele local não fosse meu, não fosse nosso, como se nada me dissesse...nada!
Mas lá estavas tu! Ainda mais bonita que da última vez que te tinha deixado. O cabelo escuro, comprido, cobria-te os ombros e as tuas pernas dobradas, brilhantes sobre a quais escrevias, deixavam-me ainda com mais ânsia de te abraçar. Mas os meus pés pareciam não querer mexer-se. Era capaz de ficar ali, tão somente ali, naquele canto recondido, a observar-te. Mas não. Avancei. Estavas de costas, não me viste, não me apercebeste. Tinhas os ouvidos tapados, a ouvir-nos, escutando uma melodia que é só nossa.
Já perto de ti beijei-te o pescoço nu. Estremeceste mas não te assustaste. Saudades do teu aroma. Envolveste-me com a tua mão, olhaste-me e sorriste. Não dissemos nada, das nossas bocas, ávidas, não foi proferida uma única palavra. Os nossos olhos falaram entre si e como se entenderam perfeitamente...! E ali mesmo nos perdemos, sem pensar em mais nada...esquecemo-nos do mundo. Éramos só nós: tu e eu.