É no espírito rectilíneo do desejo que sigo as curvas que me hão de levar ao fundo do teu corpo. A nudez é a mera timidez que esconde a insaciedade, a insanidade da loucura com que me vês. Derivo em cada vector como se fosse um qualquer desenhador de corpos nus, um escultor de massas opacas que em esferas de luz o teu corpo traduz. Não, não sou nada disso, sou tudo aquilo que inventas quando no teu pensamento me crias, me afagas e me guias pelas luxúrias infindáveis do teu regaço. Ribeiro, riacho onde me banhas como uma criança que em ti adormece, nesse sonho que não perece, apenas aguarda, amanhece.
26.9.11
14.9.11
entrega

Na curvatura do teu dorso, descubro o pôr-do-sol, expoente máximo do fim de um dia. Este silêncio calmo com que sabiamente me entregas o teu mais íntimo momento é o culminar dos sentires, dos desejos com que em mim te deitas, nua, como a lua que aos poucos nasce do horizonte. Há percursos por descobrir em nós, pequenas pregas de pele que sulcam suavemente o mar do teu corpo. É delicioso este instante, este em que me permito descer ao teu profundo ser. Nos lábios, comprimidos suavemente, retenho o sabor da tua pele, enquanto degusto com os meus olhos as linhas suaves com que se veste a tua silhueta. É um sublime prazer, esse de te poder ver, na forma mais intimista de te ter. Contemplar a beleza é tê-la ao alcance da mão e não querer tocá-la, por não querer deixar de olhá-la.
13.9.11
proeminência

Perfilo-me na estranha saliência que o teu corpo provoca no ar ao caminhar. Sigo-te como se fosse detrás do teu passar e vou absorvendo os detalhes, as curvas e os instantes em que te constróis como ponte oscilante sobre o vazio enorme do vale que se forma no meu corpo côncavo. Vem! Deixa-te tombar sobre a nudez do espaço como se fosses cometa em aproximação ao sol que te derrete os sentidos e te faz entrar em combustão. Anda! Vem colidir com o meu corpo despido numa erupção ancestral de momentos delirantes, em que ambos somos amantes, amados, fundidos, enrolados no turbilhão desta espiral galáctica pontilhada com o brilho dos teus olhos.
12.9.11
entardecer
No buliço suave da agitação dos dias, seguem as minhas mãos vazias em direcção aos arrepios da tua pele. Não há noite em que não persiga o entardecer na constante busca do teu prazer. Não há dia em que queira a noite amanhecer na ânsia de despertar a maresia do orvalho salgado do teu corpo por mim molhado. Não haveria outra maneira de te amar se não esta fuga entre madrugada e tarde. Não poderia a noite impor-se ao dia sem entardecer num abraço morno. Neste espaço mouco acorda o silêncio perene de dois corpos que em delírio se pedem e ficam quietos, aguardando a madrugada, esperando que esta alvorada seja o nascer de mais um sentimento.
11.9.11
...
Mergulho profundamente na intimidade do teu corpo. Sustenho a respiração e nado no teu entorno. Sentes como agito as tuas águas, como nelas me banho, como nelas me deito. Há na fluidez das tuas linhas uma essência que me alimenta, nos contornos do teu corpo um encanto que se assemelha à floresta virgem, algo por desbravar que sustento na ponta dos lábios, prontos para te beijar a pele macia. É nas folhas que se abraçam ao vento que te envio escritos eternos, como páginas dum diário por escrever, como esculturas em pedra por desfazer. Emerjo para te respirar, como se fosses ar. E no sol vejo o brilho incandescente dos teus olhos que do céu não param de me olhar.
9.9.11
pintura

É em silêncio que invento o teu corpo, os traços que riscam as folhas, os tons que se mesclam na água pintando cada detalhe, cada nuance, na curva mais apertada das tuas ancas. Apesar de não haver ruído percebe-se no ar o teu gemido ao seres pintada suavemente pelos pincéis dos meus dedos. Esta cumplicidade entre pintor e pintura é o sublimar do erotismo: um eu em nós que se faz de carícias, de tons, de traços indeléveis que percorrem o corpo como linhas imaginárias que nos unem, nos abraçam e nos comprimem, um contra o outro. Neste bailado, o branco do papel fica matizado e nesse momento ofereço-te a alma que pinto no brilho da tua luminosidade. Percebo como me olhas, com a cumplicidade dos amantes que se tocam num perpétuo instante.
convexidade

Fico quieto na tentativa de não agitar a luz das velas. Quero que o teu brilho seja constante como o reflexo do sol na face da lua. Quero ver-te na plenitude da tua pele nua. Esta atracção gravítica que o teu corpo exerce sobre o meu faz-me girar em torno da tua beleza ímpar. Hoje quero ser o vento que em ti se vem abraçar. Este silêncio que não quebro, quero senti-lo como troca infinita de sentidos, que não preciso dizer ou escrever, apenas absorver. Quero olhar-te! Não preciso sequer de te tocar para saber a imensidão do teu ventre.
Fico imóvel, perante a magnitude do teu olhar. Quero naufragar-me em ti.
Fico imóvel, perante a magnitude do teu olhar. Quero naufragar-me em ti.
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