31.3.09

Saídas de lugar nenhum


(a pedido de uma amiga especial...e dedico-te também!)


As coisas às vezes parecem saídas de lugar nenhum de tão inesperadas que são. E, no entanto, têm todo o sentido. São então a resposta que ninguém já espera. O sonho que se deixou de ter. Pequenos milagres porque incompreensíveis. Como se alguém vigiasse almas ou adivinhasse desejos. Alimento de vida em cores e sabores antecipados servido por mãos invisíveis dum Deus qualquer. É-se feliz pelo instante da dádiva. É-se feliz pela dádiva amizade.

E é quanto basta para avançar com a certeza de que tudo faz sentido. Os lugares passam a ter nomes e gravam-se na memória de quem sente. Pedaço a pedaço a vida faz-se. O momento instala-se e constrói-se presente, mesmo que o passado não o antecipasse. Só a vontade expressa num desejo que tantas vezes se cala e o sonho que não se fez promessa se reconhece então.

Finalmente acredita-se na possibilidade das coisas, mesmo que se pensem impossíveis. Sabe-se dentro de nós que a vida vale a pena com e pela amizade. Mesmo quando parece alhear-se de nós.

28.3.09

Amor num só acto


Tatuo o teu corpo a letras de fogo. Prazer imolado em frases. Sentidos despertos que sublimam a libido num instante em que os corpos distantes se unem no infinito. Devoramos metáforas em doses maciças, incenso disperso pelo quarto que nos acolhe. Gemidos que se calam nas palavras que os desnudam, como senso último de todo o desejo.

Tango a dois corpos dançado, música que embala o destino, cortando o vazio que à volta se condensa, como gotas do suor derramado pelo êxtase dos silêncios consumados. Os meus braços sujeitam o teu corpo desnudo contra o meu, os teus cabelos feitos de ventos soprados passeiam-se pelo espaço e, o brilho dos olhos que vejo são sóis que guiam os meus.

Colho os pedaços da alma como átomos dispersos do teu ser, que moldo em flor de luz e prazer. Ensaio as letras que cantam as músicas nos ritmos que os corpos deixam quando as forças jamais os sujeitam. E ali, perdidos no meio do palco, actores deste belo acto, deixamos abandonados à ausência de público, os corpos, trajes despidos das almas, que partiram para lá de eternidade.

25.3.09

Despertar


Depois de abandonado sobre a cama, o corpo, dorido de um dia intenso, repousa sobre a seda dos lençois. A alma, esvoaça para longe, envolta em sonhos e quiméras, deixando-o ali, abandonado, perdido, vazio de ti.
Sobre o céu escuro da minha noite, as estrelas são sinais que me guiam nesta viagem distante a lado nenhum. Esta alma desprovida de sentidos, segue o caminho infinito da noite escura, procurando-te em cada estrela, tentando descobrir-te em cada galáxia, para que possa regressar e ter fôlego para fazer o corpo que a perdeu, caminhar pela estrada da vida.
Depois dos sonhos, o raiar do dia, chama-me de volta, o corpo, gelado, inanimado, espera-me, com a saudade que o vazio lhe deixou.
Regresso, para um novo despertar, que o dia, dissolvendo a noite, voltará a fustigar, deixando-o exausto, no final de mais um dia.

24.3.09

O meu toque


Olho-te, na profundidade do mar dos teus olhos, sinto-te a alma palpitar. Invado-te, consentes a minha entrada, abrindo-me o corpo, desvendando-me o espírito. As minhas mãos adentram-se na densidade suave dos teus cabelos e a minha boca prova o carmim dos teus lábios húmidos. Deixo os meus olhos abertos e vejo-te na perspectiva de um beijo longo, num instante de intensa proximidade em que os corpos se tocam e as almas se amam.

Na memória guardo a tua imagem, o mar que se mescla com teus cabelos lisos, o olhar que me chama, antes mesmo de me ter visto, o Sol põe-se detrás de ti, adormecendo o dia. Não sabes, mas a Noite espera-te para lá do último raio de luz.
No céu escrevi o teu nome, com as estrelas que agora brilham no teu peito. No vento, que te penteia chamei por ti, numa saudade antecipada, num grito premente. Não te vejo, não te toco, mas sei onde estás, conheço-te como sempre, sinto-te, cada vez mais, minha, como sempre foste, desde o primeiro instante em que brilhaste no meu firmamento.

Universo


Surges das sombras, como reflexo do teu próprio corpo desnudo. Vens, em gestos lentos como a brisa de um sopro de vento. O perfume da tua pele precede-te, como prelúdio de um instante que está para chegar. O fogo da tua alma incendeia o ar que se aquece em ti. A música geme a tua voz que se abraça com as notas fazendo a letra gritar mais alto que o próprio prazer.

Eu, espectador deste momento, quedo-me sentado, esperando pelo meu tempo. Deixo o meu olhar deslizar por todo o teu perfil, com um suave traço de contorno, um risco imaginário com a ponta dos dedos. Apuro os sentidos, retirando ao brilho que ofusca o olhar, o calor que me aquece a pele. Inalo-te, em cada inspiração, como se te houvesses dissolvido na atmosfera.

Quando os corpos se encontram, o Universo recomeça com uma explosão de energias que iluminam o infinito vazio de cor. O tempo começa do zero, como se antes não existisse um único segundo. As bocas calam-se num beijo longo e no olhar nascem as primeiras galáxias, remoinhos de prazer que rodopiam no espaço.


20.3.09

Quem disse que morreu a madrugada?!

(Texto escrito por mim para o prefácio do livro "Nunca ninguém sabe"
de Simone d'Oliveira)



“…Mamã, preciso de vinte escudos para ir à Esplanada.”
Estávamos em 1965. Na Esplanada do Cinema St. António em Faro ia realizar-se mais um espectáculo de variedades e, nessa noite de Verão, o lote de artistas valia a pena não perder. O meu livro de autógrafos tinha de ser honrado com as fotografias e dedicatórias de alguns deles. Desfolhando-o, há um por cada página, fotografias belas e retocadas como só o “Apollo” sabia fazer: Madalena Iglésias, Tony de Matos, Alberto Ribeiro, Jorge Alves, Laura Alves, e estrangeiros como Henrique Morineau, Gigliola Cinquetti (pedida à RAI e recebida por correio), etc., etc., etc.…
Mas essa noite era diferente. Eu iria conhecer pessoalmente a minha intérprete por excelência, aquela voz, aquela força estranha e arrebatadora que ouvia pela rádio, religiosamente e comovido ou no “pick-up”, quando me isolava no quarto, sofrendo problemas, desamores e raivas de adolescente…
Não foi difícil obter os vinte escudos, ainda que ultrapassasse a mesada, pois lá em casa os meus caprichos pró-artísticos sempre foram encarados como normais e muito bem aceites, dado que era bom estudante, e tendo em conta que a minha mãe só não cantou profissionalmente porque o terror dos palcos se apoderou dela em experiências que teve a nível de récitas escolares, e porque o meu pai era autor e actor amador. Eu próprio já tinha começado a pisar o palco do Grupo de Teatro do Círculo Cultural do Algarve, mais tarde Grupo do Teatro Lethes.
“Aqui tens o dinheiro. Só não percebo como é que podes gostar dessa artista. Ainda se fosse o Tony de Matos ou a Madalena…” – disse a minha mãe.
“Só prova que tem bom gosto, o rapaz!” – e mais não disse o meu pai.
Nunca discuti com eles esta minha preferência pela Simone. Desde miúdo que sou muito observador, e não me sobra tempo para conversas estéreis. Os gostos de cada um são para respeitar, e o meu não tinha nada a ver com as opiniões dos meus progenitores. Nem eu próprio saberia explicar naquela altura, porque é que aquela voz e interpretação eram as únicas que me levavam às lágrimas. Só sabia que era assim, daquela forma, que eu queria cantar um dia. Costumo dizer que foi a mais importante professora de canto que tive, sempre atento à sua pronuncia, à divisão das frases, à intenção de cada palavra, ao sentimento que exprime em cada gesto… È que quando a Simone canta, por exemplo, um desgosto de amor, não traduz a humilhação e o masoquismo que a maioria das mulheres sente, mas pelo contrário, é a raiva, o inconformismo e a sobrelevação… que elas não lhe perdoam.
Os homens, pelo contrário, gostam, acham-na uma mulher desafiadora, feminina até dizer “basta”, mas sem ser lamechas nem “barbie” como agora se diz, uma artista intocável, misteriosa, distante, como os grandes artistas devem ser. Uma brilhante jogadora no ténis da vida, numa sociedade onde o court é só para sócios, e nos jogos têm sempre quem lhes apanhe as bolas…
Já tenho pensado que se hoje tivesse aquela idade e dissesse: – “…mãe, preciso de dois mil escudos para ir ao concerto a Alvalade…” – quem é que eu agora iria ver? E só aquele bicho de palco, aquele furacão que arrasta multidões e me faz vibrar da mesma forma, me vem à ideia: Tina Turner.
Fui ao espectáculo e, hoje, passados trinta e sete anos, tenho na minha frente a sua fotografia autografada, e do outro lado do telefone a minha querida amiga e colega Simone:
– “…meu querido Carlos, escreve qualquer coisa para este meu livro, teria muito gosto nisso.”
Não sei se ela terá dito mesmo “este meu livro”. Mas eu quero pensar que este será um dos muitos que o seu talento ditará.
Assim, sem pretender escrever as minhas memórias, resolvi avivar algumas recordações de tempos que deveriam, de qualquer forma ser referência, para progredirmos como seres humanos e não nos deixarmos cair nos mesmos erros. Temos obrigação de reconhecer, estimar, preservar e agradecer a Arte, qualquer que seja a sua expressão, falando de como nos sensibiliza e toca, deixando marcas para o resto das nossas vidas, mesmo que negativamente.
Recuemos um ano. Fevereiro de 1964. Tempo triste para mim.
Ainda hoje lembro e sei aquele fado que me foi ensinado, frase a frase, com um fio de voz fino e fraco, entre delírios, dias de aparentes melhoras e recaídas…
No quarto, deitada, o gato aos pés da cama, eu encostado ao lado na cabeceira, a minha avó ia desfiando aquele rosário de versos do fado do soldado português:

“…é teu dever
Saber morrer como um forte
Não tenhas medo da morte
Pois só se morre uma vez…”

Palhavã, palavra maldita nesse tempo, poucos eram os que iam e voltavam.
Útero…palavra difícil e feia para uma criança que, havia pouco tempo, penetrara timidamente no estudo dos aparelhos respiratórios, digestivo e circulatório.
Porquê tudo aquilo? Para quê tanto sofrimento? Onde estava Deus? De que serviu a catequese até à preserverança, e fazer parte da Irmandade do Carmo? Porquê assistir à missa como menino de coro e todo aquele latim decorado?
“…se a avó melhorar, juro que vamos os dois a Fátima agradecer à Virgem…”
A avó não melhorou e eu jurei que nunca iria a Fátima.
Não vou discutir crenças nem religiões. Por enquanto, ainda continuo a observar como cada um acredita no que acha mais conveniente; sobra-me pouco tempo para conversas…
Pode ser que a Senhora de Fátima tenha feito alguns milagres. Possivelmente aqueles em que nos leva aos médicos certos, que nos receitam os medicamentos certos, ou contemplar-nos com a sorte de descobrir o problema quando ainda se vai a tempo de acabar com ele. De resto, se foi um objecto não identificado que deu três voltas à Cova da Iria como se fosse o Sol, ou não, não discuto, vou observando as teorias… Só lamento é que em 1917 ainda não houvesse “media”, nem satélites para captarem as aparições e divulgarem os milagres…e mais: promoverem os seus protagonistas…Só a Igreja. E mesmo assim, uma das minhas tia-avós que faleceu recentemente com cem anos, continuava convencida de que a descida do homem na lua tinha sido uma grande encenação dos americanos…
Não é que eu esteja tão desumanizado que não tenha momentos de fraqueza como qualquer pessoa, também digo “ai meus Deus”, e benzo-me antes de entrar em cena… O que acontece é que o grau de auto-estima varia em cada um. Acreditarmos em nós como seres racionais, acreditarmos nas nossas capacidades e até, se como dizem as Sagradas Escrituras, fomos criados à semelhança de Deus, é meio caminho andado para se chegar aos objectivos.
Por isso que relevância teve quebrar a jura, e ir a Fátima passados trinta e cinco anos, a pedido da minha mãe, com o pretexto de que não queria morrer sem visitar esse lugar sagrado?...Foi bonita a visita, ela continua viva, e acreditem tal como eu… Já visitou, está visitado.
Lembram-se daquela “Avé Maria do Povo”, que faz parte do repertório da Simone? Escutem-na!
Como a vida, enquanto dura, é uma aprendizagem e armazenamento de conhecimentos constante, devo dizer-lhes que hoje, a minha mãe mudou de opinião sobre a minha cantora de eleição. Quem os meus filhos ama…
Desde “Lado a Lado”, “Sol de Inverno”…a Eduarda…”Fúria de Viver”, “Desfolhada”, o silêncio, a mudança de voz…O Pedro…”Apenas o Meu Povo”…A Eduarda e o Pedro…Os jornais, a televisão, a rádio…O Varela…E o teatro, até à minha estreia no Parque Mayer com a Laura Alves, alguns anos passaram, ela na sua luta pela vida, e eu em estudos, na guerra, na esperança de um dia vir a ser quem sou hoje…este Carlos Quintas de quem, hoje, a Simone faz o favor de ser amiga. Um dos meus momentos mágicos, a entrada num camarim do Teatro ABC, levado pelo saudoso Varela Silva. Estávamos a ensaiar uma peça no Monumental, ele era o encenador e eu revelei-lhe o meu sonho de criança, ser apresentado à Simone…O Varela era daqueles homens capazes de realizar sonhos.
Ainda estava mais bonita do que quando a vi em Faro. O cabelo cobreado, caído em ondas pelos ombros enquadrava o rosto agora magro, esculpido em estilo romano, donde sempre se destacaram aqueles olhos grandes e verdes como dois peixes num aquário de sabedoria e talento.
Como uma Árvore esguia com as raízes bem assentes na terra, disse-me do alto da sua folhagem com uma voz madura: “Olá Carlos, já ouvi falar muito de si. Não deixe que esse senhor o atormente…”
Mais tarde percebi que, o que para muitos resultava um tormento, para mim foi maestria.
Esta era a Simone que eu sempre idealizara, tratando a Vida por tu!
Veio a amizade, o companheirismo, as cantigas, o teatro, algumas tímidas confidências, depois mais, conheci o Pedro e a Eduarda, noites de longas conversas, falou-se de ilusões e desilusões, concretizaram-se projectos…mas nunca consegui tratá-la por tu…ainda hoje.
Se fosse preciso, eu era capaz de continuar a pagar para a ouvir cantar.
Mas um dia…Houve uma pausa…A Árvore desfolhava-se…
A Simone não estava bem…
É nestas alturas que se dá um black-out nos sentidos em que pomos em dúvida donde vimos, para onde vamos ou se vale a pena ser quem somos. Foram dias de angústia, sem saber qual a forma de pôr a engrenagem da vida de novo a funcionar em pleno.
Tentar ajudar…mas como? Não sei se a amizade, a compreensão, o amor, e tudo aquilo que de bom nos rodeia chega para aliviar a consciência e a traição de se ser humano.
E lá vamos nós abrir as gavetinhas da mortal memória…
Recordei a Esplanada em Faro, a minha avó, o gato aos pés da cama, a Senhora de Fátima, o silêncio, o sofrimento, a mudança de voz, a “Ave Maria do Povo”, o encontro no ABC, os “media”, a Eduarda e o Pedro, o Mestre, a amizade, e nada fazia sentido!
Isto pensei eu…mas estava enganado…
“…Que é mais nobre para o espírito: sofrer os dardos e setas de um ultrajante fado, ou tomar armas contra um mar de calamidades para pôr-lhes fim, resistindo?...”*

E eis que a Árvore se ergue de novo, e do alto da sua folhagem diz com a sua voz madura:
“É que não me apetece nada!”
E com “Fúria de Viver” pôs-se “Lado a Lado” com a “Sensatez”, pensou “Começar de Novo”, foi “Degrau em Degrau”, cantou uma “Ave Maria do Povo” e gritou “Glória, Glória Aleluia”, “Quem Disse que Morreu a Madrugada”???!!!



* (Hamlet, W. Shakespeare)

18.3.09

Palhaços do Inferno

Além…
nas densas sombras das portas cerradas
no pranto ciumento das vidraças ala
das danças, sarcástico…
como hoje e no antanho,
pequeno como eu,
do mesmo tamanho.

Além…
onde os muros se agitam perto do fim
e encurtam lugares cá dentro de mim
onde os tectos se descosem da levitação
e calcam alentos de exaltação
onde os ares se refazem a cada minuto
e desprezam arcanjos em estado bruto
onde os brilhos se encobrem num coma de acanho
pequenos como eu,
do mesmo tamanho.

Além…
onde o sustento morre antes dos animais
e secam os líquidos, a água e os demais
onde as flamas mastigam o firmamento
e derretem as cordas do pensamento
onde a morte desbasta as searas de sangue
e tombam os frutos da árvore langue
onde a utopia é um finado do rebanho
pequena como eu,do mesmo tamanho.

Além…
da linhagem dum arlequim terno,
assim são os palhaços do Inferno.
Assinam os nomes num jeito canho,
pequenos como eu,
do mesmo tamanho.

Preciso-te


Preciso de ti. Por nenhuma razão em especial. Apenas por tudo, apenas por nada.
Preciso do teu sorriso, que se te acende no rosto e me ilumina os dias.
Preciso de me encontrar no brilho dos teus olhos faroleiros que me fazem rumar ao cais onde te escondes.

Preciso de ti…

Que te deites ao meu lado e que fiquemos em contemplação perfeita.
Preciso que deites a cabeça sobre o meu peito, preciso de te ouvir gemer o meu nome em doces ecos surdos. Preciso que adormeças no meu colo e que repouses em mim este permanente cansaço.

Preciso de ti…

Porque a minha alma já não me pertence, abandonou-me e habita descaradamente na tua. Preciso que te deites ao meu lado, que me abraces.
Preciso de acordar e de sentir que estás exactamente no mesmo sítio.

Preciso que a forma tome o lugar das letras, contraindo nela a vontade de te expressar.
A vontade de te ver, de te tocar.

17.3.09

Percorro-te


Percorro-te
Na ânsia de beber toda a tua beleza
De afagar os teus contornos.

Não me canso de olhar
Os teus olhos profundos
Que pousam no meu corpo.

Terra nascida do mar,
Sonhei-te para te dar forma
Vivi-te nos ínfimos detalhes.

Amando-te, amei-me a mim mesmo,
Revi-me nas tuas águas,
Encontrei-te nas tuas noites.

Mau caminhante,
Ávido de aventura e sedento de paz,
Banhei-me na calmaria que me ofereces.

Perdido no espaço e no tempo,
Lançado pela minha nave espiritual,
Cai no teu monte mais alto.

Contudo prendes-me,
Esta contradição consome-me,
Este querer ficar e querer partir.

A ti me entrego,
Nunca te dizendo adeus.

Digo: “Amo-te” apenas quando o sinto,
É sempre.

16.3.09

Casa

Deitados na suspensão das estrelas
Num vagar de carícias lentas de luz.
A nossa casa é o domingueiro sentir
Que ao longe nos pacifíca e seduz.

15.3.09

(Re)encontro sem memória


Não me lembro do teu nome…
Não me lembro se o esqueci nas voltas da memória
Ou se nunca mo disseste.
Não me lembro do perímetro da tua história
Ou das cenas que fizeste.
Não me lembro dos traços do teu semblante,
Nem dos odores narcóticos de amante,
Com que, nua, levaste a tua por diante.
Não me lembro do choro ostensivo do jacaré
Que dormiu, nesse corpo de mulher, a meu pés
E maquinou frias ilusões em marcha a ré.
Não me lembro de despegar das paredes imundas
Os ecos das juras mais solenes e profundas
Que ousaste glosar em falas fecundas.
Não me lembro de tactear o teu seio,
Nem da saliva nos beijos de permeio
Nem da volúpia de sangue no sexo molhado
Nem dos suores ardentes do orgasmo arrebatado.

Não me lembro de me lembrar de ti.
Não me lembro do que esqueci.
Não me lembro de me lembrar de ti.
Não me lembro do que não vivi.
Foste tatuagem, carimbo e sinal.
Foste roupagem de um limbo irreal.
Já não sei o que és e foste, afinal,
Se um desejo, um sonho ou um mal.

14.3.09

No chão húmido


Tudo não passa de um rumor incandescente,
Os lampejos de ontem ainda vibram sem fim.
Vieste e foste e eu sem ver gente
Devoto-me ao canto mais recôndito de mim.

Foi aqui, no chão húmido que me ampara,
Que tiraste as vestes da cor do açafrão,
E o teu corpo desnudo em candura de ave rara
Abraçou o meu, com um beijo na mão.

Louco, nas certezas cálidas do coito animal,
Sorvi o alento da paixão não esquecida.
Trouxeste-os em ti, anjo audaz e sensual
E, sem dizeres tua graça, levaste-me contigo.

Agora foste, voltas mas não estás.
Agora fico, vou e ainda sou.
Este pedaço de carne que aqui jaz
É a memória do tempo que me deixou.

Sinto-me a arrefecer…Neste cantinho meu.

A torpe presença do medo


Repugna-me o medo.

Rejeito a forma disforme do seu acinte.

Intentos se quebram na raíz, desfazem-se sem resistência, acobardam-se. Vil intromissão.
Não o chamo. Não o quero. Desminto convenções. Mesmo assim, ele fica. Fita-me com desdém, traz no olhar o escárnio instintivo do logro, rouba-me a integridade. Devolve-me à frívola condição do nada, reduz-me à ínfima dimensão de grão de pó, esmaga-me entre os dedos secos. Relembra-me a contingência da incerteza. Que fazer? Que ser?

Não suporto as risadas insonoras que escuto nas profundezas da memória. Anamneses perturbáveis. Afinal também as há. Derramam-se nas veias, confundem-se no sangue, esquadrinham o corpo e tomam-no de assalto. Suores frios. Inércia inevitável. Inacção. Das sombras de antanho que cobrem o hoje, no exacto instante em que menos convêm, brotam os fluídos que secam os filões de resgate. Não há salvação. O revés anunciado do sempre confirma-se. É evidente. Degrada-me e corrompe-me. Não me mexo mas sinto-o. Está em mim. Eu faço-o, ele desfaz-me. Sou simultaneamente pai e rebento parricida. Perco-me na encruzilhada filial.

Ele cresce com o viço de um imortal. Jamais perecerá. Eu sim, às mãos desse reles parasita. Enoja-me esse invisível monstro asfixiante.

Repugna-me o medo.

13.3.09

Apareceste...



Apareceste-me…

…uma alegoria, uma visão, uma quimera, uma utopia.

Subitamente e de mansinho, vieste silenciosamente para mim. Tudo o que tinha sonhado se concretizou em ti, em tudo o que és, em tudo o que me fazes ser, ver, sentir, perceber. Admiro-te. Adoro-te. Quero-te.

Nas feições do teu rosto de anjo está a candura de uma frágil criança, a brandura de uma nuvem branca, a valentia do pequeno pássaro que aprende a voar, a viveza da planta que brota da semente que jaz na terra. Tens isso tudo em ti! Será que não vês como és perfeita? Tão magistralmente perfeita, tão somente tu. Tu, o teu olhar, o teu sorriso, os teus cabelos, o teu cheiro, o teu gesto, a tua voz, o teu corpo…tu!

Vejo-te sem abrir os olhos, trago-te para o pé de mim.
Preciso de ti. De tudo em ti. De tudo o que és.

É indomável o poder do sentimento. Deixo-me levar porque evocas além do ínfimo eu, porque me mostras sítios insondáveis da alma.

Se as palavras chegarem, se os gestos puderem…
…deixa-me dizer-te…
...que existo para ti…
…que só sou contigo!

Vem e fica. Agora que me apareceste, não vás.

Retrato

Guardo no armário
a fotografia estimada
do ápice do teu semblante.
É justo mostruário
da saudade velada
de uma quimera distante.

12.3.09

Quero estar contigo



Bati a porta. O dia foi longo. A casa revela a minha ausência.
Roupa por arrumar, louça por lavar.
As pressianas ainda abertas mostram-me um dia prestes a acordar.


Mas, indiferente, dirijo-me ao quarto.
Dispo a camisa e visto-me de memória.
De saudade.


Olho os lençois que denunciam o meu pensamento: quero estar contigo.

Viajante




Gosto de lugares claros onde veja o que sinto e sinta o que vejo.

Não gosto de adivinhar nuvens em céus abertos, nem de olhar para além de nevoeiros cerrados. Fico quieto no meu canto e espero que pare o tempo que me tapa a vista e tolda a mente para abrir os olhos e ver de novo.

Com olhos de ver. Em lugares de onde nada se deixa esconder.

Na verdade não gosto dos lugares onde se adivinham coisas que fazem mal à alma.
Ou de sítios onde tenha de alongar os olhos para ver o que me é dado ver sem ter de me esforçar.

Gosto dos lugares onde tudo é límpido e transparente.
Como eu o sou.

Viajo por todos sem medos. De nenhum fujo.
Mas recuso-me a habitar em alguns. Nos escusos, nos dúbios.
Naqueles onde a dúvida se instala. A desconfiança se abate.
Não lhes pertenço. Não são a minha casa. Nem meu pouso.


Não viaja comigo quem gosta de lugares assim.

11.3.09

história sem história




Penso em ti.

Simplesmente.

Irrefutavelmente.

Irremediavelmente.



Levas-me para lá do real,

Fazes-me pensar no impossível

Que é sempre possível.



As lágrimas correm

Porque sim e porque não.

Sem saber porquê.

Apenas sei que és tu.



Tu, que tão pequeno

És tanto.




Eis uma história sem história

Onde a maior história és tu.

Só nós


Chegara! Que sentimento de segurança me invadira naquele momento. Estacionei o carro e suspirei. Fora um suspirar de alívio. Sentia falta daquelas paredes, daquele hábito que todos os dias repetia religiosamente. Fazem-me falta certas banalidades. Saí do carro, retirei as malas e corri pelas escadas. O momento pelo qual aguardara toda a semana estava prestes a acontecer. As chaves, essas, vinham na mão já prontas para abrir a porta, para me transportar para o meu mundo. Entrei, pousei as malas e...pé ante pé, procurei-te. O meu coração tremia, vasculhando cada canto. Os meus olhos deambulavam, percorrendo todo os pormenores, como se aquele local não fosse meu, não fosse nosso, como se nada me dissesse...nada!
Mas lá estavas tu! Ainda mais bonita que da última vez que te tinha deixado. O cabelo escuro, comprido, cobria-te os ombros e as tuas pernas dobradas, brilhantes sobre a quais escrevias, deixavam-me ainda com mais ânsia de te abraçar. Mas os meus pés pareciam não querer mexer-se. Era capaz de ficar ali, tão somente ali, naquele canto recondido, a observar-te. Mas não. Avancei. Estavas de costas, não me viste, não me apercebeste. Tinhas os ouvidos tapados, a ouvir-nos, escutando uma melodia que é só nossa.
Já perto de ti beijei-te o pescoço nu. Estremeceste mas não te assustaste. Saudades do teu aroma. Envolveste-me com a tua mão, olhaste-me e sorriste. Não dissemos nada, das nossas bocas, ávidas, não foi proferida uma única palavra. Os nossos olhos falaram entre si e como se entenderam perfeitamente...! E ali mesmo nos perdemos, sem pensar em mais nada...esquecemo-nos do mundo. Éramos só nós: tu e eu.