Hoje é 25 de Abril, dia de aclamar a liberdade!
Mas é também o dia em que, de forma sistemática, recordo aquela que foi uma experiência absolutamente marcante da minha vida. Considero que foi essencial para o meu crescimento como homem íntegro e que me fez, na altura, pensar muito naquilo que queria para a minha vida. Acordar e adormecer sempre com a ideia de que aquele poderia ser o último dia, fez-me sonhar com um mundo melhor.
Trinta anos depois, escrevi um livro - "Um Baile de Furriéis" - recordando grande parte de toda essa vivência... Este dia, há 35 anos atrás, parecia um dia igual a tantos outros... nem o facto da emissora oficial não passar outra coisa a não ser música clássica, não haver notícias, nem relatos, nem as vozes que habitualmente nos faziam companhia em horas paradas, proferirem qualquer palavra foi para nós motivo de grande alarido... Só soubemos da Revolução dos Cravos muitos dias depois tal como o inimigo...entretanto, o clima de medo adensou-se muito. Podiamos morrer a qualquer momento, o que seria muito inglório já depois da guerra ter terminado...
Deixo um pequeno excerto desta minha peça de teatro em que o Victor, na verdade, é o personagem que me retrata e o Fernando, o meu companheiro mais próximo de guerra cujo nome real não interessa...
II ACTO
Cena I
(Madrugada, a seguir ao ataque, ainda um amanhecer tímido. Victor e Fernando, que ainda não se deitaram, conversam na messe. O rádio transmite música de intervenção, há copos e garrafas espalhadas nas mesas, as luzes ainda estão acesas, a noite e os acontecimentos, pesam.)
FERNANDO
Ainda penso no que teria acontecido se o Kwena não tivesse dado o alarme. (Vai desligar o rádio) Parece milagre a coincidência, dele ter saído da base mais cedo do que é costume...
VICTOR
Nos dias em que sai! Quando vai à sanzala é para se encontrar com a Maria, ver o bébé e levar mantimentos.
FERNANDO
(Em explosão) Mas aqueles turras de merda não sabem que a guerra acabou, porra?!
Não têm chefes, não têm rádios? É uma cassete que têm na cabeça? "matar...matar...matar..."?!
VICTOR
Tem calma, Fernando...O que é preciso é enfrentar a realidade de uma guerra totalmente nova em que não podemos matar...Só podemos evitar que nos matem! Desde que estejamos preparados...
FERNANDO
(Senta-se) Preparados... Parece que nada te afecta. Como é possível manteres a calma numa situação destas? Não tens medo de morrer?
VICTOR
Todos temos que morrer, mais tarde ou mais cedo. O que acontece é que cada um tem razões para desejar, ser mais tarde ou mais cedo...Depende de como se imagina o futuro...
FERNANDO
Estás a dizer que não tens futuro?!
VICTOR
Não! Todos temos um futuro quando sairmos daqui. Mas será que o meu futuro será aquele que eu quero? Será melhor, a vida que eu vou encontrar, ao deixar esta morte aparente?
FERNANDO
Falas como falaria um morto, se os mortos falassem...
VICTOR
Tens dúvidas? Quando parti de Lisboa, senti que morri, nada mais para mim teve interesse. Nem o teatro... Se ainda reajo, é unicamente por defesa, para que não me afastem deste sono, no qual mergulhei para não pensar no que poderia ter tido, ou no que poderia ter feito... Quem poderia ter conhecido...
FERNANDO
Não é possível que com vinte e três anos penses dessa maneira. Tenho quase a certeza que as pessoas que terias conhecido com esta idade e nos meios onde te movias, não seriam as mais certas para ti...
VICTOR
Essa é boa! Que meios são esses a que te referes? Parece que sabes mais a meu respeito do que eu...
FERNANDO
Não, não é isso...
VICTOR
Ah, deitaste-te a adivinhar! (pausa) Sabes, Fernando, parece-me, que cada vez que conversamos como agora, há sempre qualquer coisa que tu queres dizer, mas que, por qualquer motivo, não o fazes...Fica sempre no ar um gosto a insatisfação, que eu penso que se dilui com o tempo, mas que pelo contrário, aumenta de intensidade em cada encontro seguinte! Queres aproveitar a oportunidade?
FERNANDO
(Verdadeiramente atrapalhado) Não...não é nada disso...(Desliga as luzes) Se houvesse alguma coisa importante para te dizer, já o teria feito...Está a a amanhecer...Isto são realmente suposições...Fundamentadas na tua personalidade, distante, solitária...Meiga....Enfim...Deves concordar que és um pouco diferente de todos nós.
VICTOR
Meigo? Disseste meigo? Tem cuidado... Não será uma palavra fraca para uma pessoa do sexo forte?
FERNANDO
E será que não se consegue ter uma conversa contigo sem que estejas a questionar constantemente o que se diz? Disse meigo e repito, creio que é esse sentimento que anda a confundir a malta, para quem tudo se baseia na agressão, na competitividade e na afirmação do ego machista.
VICTOR
E tu não és excepção...
FERNANDO
Em vários aspectos. Tenho mais instrução, (aproximando-se lentamente) movimento-me em meios onde a compreensão se estabeleceu para certo tipo de pessoas.
VICTOR
O tipo deles ou o meu?
FERNANDO
Pára, Victor. Não te faças de parvo, nem penses que eu o sou...(aproxima-se mais) Pessoas como tu e eu precisam constantemente de ternura, de sentir a mão de alguém e não só os chorrilhos de asneiras que ouvimos dias a fio...Sabes há quanto tempo não saímos daqui, que não ouvimos dizer, "que bom encontrar-te?" (Já junto a ele) Não tens saudades de abraçar alguém?
VICTOR
Tenho (afastando-se) Claro que tenho. Mas todos têm...Ninguém sai daqui há muito tempo.
FERNANDO
Queres dizer que quando vamos à sanzala, sim porque tu também lá vais quando o Capitão o exige, vais com a mesma disposição e finalidade do que nós? Se pensas que eu não sei as voltas que dás para não entrar na cubata da Maria, e do pacto que fizeste com ela para que ninguém desconfiasse de nada, estás enganado, Victor. Podes enganar o Capitão, toda a gente, mas não a mim, que tenho os olhos abertos para essas coisas...
VICTOR
Que estás tu a dizer para aí? Eu já fui com a Maria. Se não vou mais é porque não me apetece, pá! Não tenho necessidade de provar nada a ninguém...Além disso a Maria é casada com o Kwena e eu deixei de lá ir quando o soube. O Capitão não devia indícá-la a ninguém, ela só aceita porque é obrigada e porque tem medo de sofrer com as consequências caso se negue.
FERNANDO
Mas tu foste e segundo te ouvi dizer, gostaste.
VICTOR
(Com amargura) Que querias que dissesse? Que foi a melhor e a pior experiência da minha vida? Ninguém iria compreender o que eu senti quando o Capitão me obrigou a entrar naquele pardieiro...Era o calor...a cegueira total quando se entra no escuro...o cheiro acre e doce que havia no ar. O meu coração batia como se me tivessse perdido na mata e nunca mais fosse encontrar o caminho de regresso. Olhei em volta e, muito a custo, os meus olhos foram-se habituando ao ambiente...só uma pequena fogueira, quase apagada, servia de iluminação àquele pequeno espaço de terra batida. Olhei para os fundos, e lá estava ela...eu mal a via, deitada sobre uma espécie de cama...e nua...Avancei, usando de toda a coragem. Ela mexeu-se e abriu as pernas, como se dissesse: "Vem, é aqui o altar do sacrifício..." Sem deixar de a fixar, começei a despir-me...Tirei a camisa, as botas, baixei as calças...acabei por despi-las também...continuava imóvel. Sentei-me ao seu lado, de frente para ela. Não resisti, acariciei-lhe os seios pequenos e hirtos que me cabiam na mão. Era seda aquela pele, nunca tinha tocado nada igual...A pouco e pouco deitei-me sobre o seu corpo e pensei que me iria abraçar...mas não...os seus braços continuaram estendidos, afastados do corpo indiferente...nessa altura já o seu calor me tirara qualquer inibição com que eu poderia ter entrado ali...(Pausa) Mas nunca os seus braços se moveram...Nunca...a não ser quando do lado da cama irrompeu um choro de bébé, a reivindicar o peito de que eu me tinha apropriado...Mas o prazer já era mais forte que a consciência...e a Maria com o braço na mesma posição, foi embalando o filho, fazendo-me perceber que era assim mesmo, que não tinha importância...até ao fim...A vontade do Capitão era mais importante do que a sua vida...(Pausa)
Como vês, gostei. Gostei de ter percebido como tudo isto funciona, do que precisamos de fazer para sobreviver nesta terra que não é nossa. Por isso este meu ar distante e meigo porque não quero zangar-me ainda mais com o mundo.
FERNANDO
(Depois de uma longa pausa) Já é tarde...daqui a uma hora toca a alvorada. Creio que nos devíamos ir deitar...Hoje vou dormir o dia todo, para ver se me esqueço, por algum tempo, desta merda toda...
Um espanto! Eu já li o livro todo como sabes e fiquei completamente impressionada não só com o teu dom para a escrita como pela própria história! Nenhum rapazinho cheio de sonhos como tu eras e sei que ainda és merecia ter que sofrer aquilo que tu sofreste...mas ergueste-te, lutaste e tornaste-te nesse homem admirável e lindoooo que és!
ResponderEliminarTenho muito, muito orgulho em ti querido Carlos!
És um ser humano lindo Carlos! Estou sem palavras, adorei o texto, o retrato sincero da tua alma e da tua experiência em África. Conhecendo como te conhecendo imagino como terá sido dificil afastares-te dos teus sonhos, do teatro, de quem amavas... Mas agora estás aí lindo, maravilhoso com 34 anos de carreira brilhantissimos! Ninguém te tira isso!
ResponderEliminarIncrível como tu, ainda tão novinho tinhas valores e princípios tão vincados! Já nessa altura eras um HOMEM com ideias muito bem definidas e correctas!
ResponderEliminarAdoro-te Carlos!
Com mais admiração ainda por ti, foi com o que fiquei mal acabei de ler este excerto...eu conheço e lido com a tua firmeza de caractér dia após dia no teatro! Felizmente tenho esse privilégio e esse grande orgulho de contactar com um grande Homem, um Homem de nobres valores e de uma educação e gentileza extremas!
ResponderEliminarParabéns querido Carlos