23.5.09

Esta palavra saudade.



Nas palavras há silêncios...
Que só o coração consegue ouvir.
Impossível querer-lhe mentir.
Tal como a sombra da Lua,
Redonda, como o teu sorriso,
Quando para mim dançavas, nua.
Murmúrio, pauta de sinfonia inacabada...
Que contém os segredos dos olhares que lhe suplicam:
Dá-me a alegria, do abraço o calor...
O seu perdido sabor...
Tira da minha alma o nada.
No nada que nos separa agora
Cabe lá tudo o que quisermos
Palavras...
Que nos fazem vislumbrar o infinito...
Ir em solto grito.
Ter memórias de casa...
Guardei-as no peito várias vidas, sucessivas...
libertei-as quando te encontrei...
E mesmo no silêncio a ti me
Dei em cada palavra uma asa...
E hoje, sentado entre o espaço da saudade
e o tempo da dor...
Há uma que voltou em voo lento, sozinha
Para o profundo mar do meu olhar...
Mas veio na forma singular: amor.



....Então, inventámos uma só palavra que define com doçura e encanto a improbabilidade universal de dois corpos se voltarem a encontrar com a mesma intensidade da Luz - a Saudade...
Somos apenas almas que gerem com maior ou menor perícia essa saudade doída. A ausência é uma saudade arrefecida, uma saudade que nos faz ter tempo para recuar e olhar para dentro.
Dizem que o tempo cura. É mentira. A Saudade não. Nada a cura. Não sobra tempo para nada, porque todo o tempo do mundo pertence-lhe.
E eu olho esse tempo da Saudade e, devagarinho, encosto-me à memória das coisas boas, como a luz do teu olhar, sempre que alongávamos a vista pelas ondas altas de espuma a rebentarem do outro lado da janela.
E é no tempo que roubo à saudade que digo que te amo. Assim, com toda a simplicidade. Ainda que não me ouças...

12.5.09

Paraíso



É quando lembro o teu olhar, o teu sorriso. Acontece como uma carícia quando menos se espera. Por isso, mesmo quando não estamos juntos, estamos juntos. Não existe arco-íris entre nós mas caminhamos sobre ele, onde a única ausência é a da vertigem, pois o mundo está tão lá em baixo que aqui, à nossa volta, nada mais existe do que cor e nuvens. Alguma vez tive medo? Pergunto eu. Algumas vez não foi assim? A capacidade de esquecer dilui-se na capacidade de lembrar. E lembra-se o agora, de mãos dadas. Juntos aprendemos a capacidade de deixar de pensar.

4.5.09

Perdição em Bali


Sei que inventamos um novo léxico,
Para sussurrar uma existência,
Fora do tempo.
A construção da linguagem,
Faz-se de seda,
Abraços de casulo!

Quem de nós recebe a palavra,
Como consagração das horas?
Quem?
Eu e tu?
Agora pronuncio-te lenta,
Lentamente.
Fazendo ressoar em mim,
Cada som que é o mais pequenino,
Lugar do teu corpo.
Um mapa que reconstruo,
Por dentro dos meus olhos.
São os percursos do desejo.
As rotas de seda.
(A foto...só para ti que a entendes!)

1.5.09

Página



Hoje vens.
Sinto a tua falta.
As minhas mãos carecem do teu corpo.

Vamos ser nós outra vez?
Não suporto este vazio de coisas comuns,
Esta falta dessa terra fecunda: o teu ventre,
Onde sulcas em mim a certeza de existir.

É. Eu também não sei se sou ou não sou,
Na ausência de ti.
Apenas imagino o teu nome despir-se,
Como se fosse a minha geneologia.
Sem ti, a minha história também se dissolve.
Rasga uma das tuas páginas e crava-a em mim.

30.4.09

Sorriso


Sorriso!
É lá que te encontro!
É inevitável!


Sempre que te lembro,
Sorrio!
E sinto-me abraçado.
Sinto-te!


E nunca te consigo abreviar.
Calo-me para sorrir,
E sorrio para te ter!

28.4.09

Volúpia


Espalham-se as essências nos fumos que cobrem o quarto com uma cortina de nevoeiro. Consome-se a madeira em fogo lento, queimando o incenso. O dia adormece, aos poucos, rasgando o espaço em raios pálidos cor de mel. Sobre a cama, desfolhaste as pétalas da rosa que te dei, eu, como uma prece, sussurrava as palavras mágicas a cada malmequer que deixava cair sobre o soalho.
Deixaste o teu corpo sobre a cama, semi despido, esperando que lhe juntasse o meu, desnudo. Deixamos a música entrar, para nos abraçar os sentidos, quebramos o tempo nos relógios parados sobre a mesa de cabeceira. É o fim do dia, o fim do mundo, o fim da vida. Dentro daquele lugar que é só nosso, ficamos tu e eu, enlaçados num transe voluptuoso. Envoltos nos silêncios que a cada música que termina, fazem calar os gemidos de um prazer reinventado. É noite já, ou será novo, o dia? Não quero saber, se a luz que me ilumina é do Sol, ou da tua alma que se fundiu na minha. Deixo as forças abandonar o corpo e a alma, exausta, cheia de todos os prazeres que me deste, entrega-se, já vencida, a um instante de repouso.

25.4.09

Interrogação sem resposta...


Hoje é 25 de Abril, dia de aclamar a liberdade!
Mas é também o dia em que, de forma sistemática, recordo aquela que foi uma experiência absolutamente marcante da minha vida. Considero que foi essencial para o meu crescimento como homem íntegro e que me fez, na altura, pensar muito naquilo que queria para a minha vida. Acordar e adormecer sempre com a ideia de que aquele poderia ser o último dia, fez-me sonhar com um mundo melhor.
Trinta anos depois, escrevi um livro - "Um Baile de Furriéis" - recordando grande parte de toda essa vivência... Este dia, há 35 anos atrás, parecia um dia igual a tantos outros... nem o facto da emissora oficial não passar outra coisa a não ser música clássica, não haver notícias, nem relatos, nem as vozes que habitualmente nos faziam companhia em horas paradas, proferirem qualquer palavra foi para nós motivo de grande alarido... Só soubemos da Revolução dos Cravos muitos dias depois tal como o inimigo...entretanto, o clima de medo adensou-se muito. Podiamos morrer a qualquer momento, o que seria muito inglório já depois da guerra ter terminado...
Deixo um pequeno excerto desta minha peça de teatro em que o Victor, na verdade, é o personagem que me retrata e o Fernando, o meu companheiro mais próximo de guerra cujo nome real não interessa...


II ACTO
Cena I


(Madrugada, a seguir ao ataque, ainda um amanhecer tímido. Victor e Fernando, que ainda não se deitaram, conversam na messe. O rádio transmite música de intervenção, há copos e garrafas espalhadas nas mesas, as luzes ainda estão acesas, a noite e os acontecimentos, pesam.)


FERNANDO
Ainda penso no que teria acontecido se o Kwena não tivesse dado o alarme. (Vai desligar o rádio) Parece milagre a coincidência, dele ter saído da base mais cedo do que é costume...


VICTOR
Nos dias em que sai! Quando vai à sanzala é para se encontrar com a Maria, ver o bébé e levar mantimentos.


FERNANDO
(Em explosão) Mas aqueles turras de merda não sabem que a guerra acabou, porra?!
Não têm chefes, não têm rádios? É uma cassete que têm na cabeça? "matar...matar...matar..."?!


VICTOR
Tem calma, Fernando...O que é preciso é enfrentar a realidade de uma guerra totalmente nova em que não podemos matar...Só podemos evitar que nos matem! Desde que estejamos preparados...


FERNANDO
(Senta-se) Preparados... Parece que nada te afecta. Como é possível manteres a calma numa situação destas? Não tens medo de morrer?


VICTOR
Todos temos que morrer, mais tarde ou mais cedo. O que acontece é que cada um tem razões para desejar, ser mais tarde ou mais cedo...Depende de como se imagina o futuro...


FERNANDO
Estás a dizer que não tens futuro?!


VICTOR
Não! Todos temos um futuro quando sairmos daqui. Mas será que o meu futuro será aquele que eu quero? Será melhor, a vida que eu vou encontrar, ao deixar esta morte aparente?


FERNANDO
Falas como falaria um morto, se os mortos falassem...


VICTOR
Tens dúvidas? Quando parti de Lisboa, senti que morri, nada mais para mim teve interesse. Nem o teatro... Se ainda reajo, é unicamente por defesa, para que não me afastem deste sono, no qual mergulhei para não pensar no que poderia ter tido, ou no que poderia ter feito... Quem poderia ter conhecido...


FERNANDO
Não é possível que com vinte e três anos penses dessa maneira. Tenho quase a certeza que as pessoas que terias conhecido com esta idade e nos meios onde te movias, não seriam as mais certas para ti...


VICTOR
Essa é boa! Que meios são esses a que te referes? Parece que sabes mais a meu respeito do que eu...


FERNANDO
Não, não é isso...


VICTOR
Ah, deitaste-te a adivinhar! (pausa) Sabes, Fernando, parece-me, que cada vez que conversamos como agora, há sempre qualquer coisa que tu queres dizer, mas que, por qualquer motivo, não o fazes...Fica sempre no ar um gosto a insatisfação, que eu penso que se dilui com o tempo, mas que pelo contrário, aumenta de intensidade em cada encontro seguinte! Queres aproveitar a oportunidade?


FERNANDO
(Verdadeiramente atrapalhado) Não...não é nada disso...(Desliga as luzes) Se houvesse alguma coisa importante para te dizer, já o teria feito...Está a a amanhecer...Isto são realmente suposições...Fundamentadas na tua personalidade, distante, solitária...Meiga....Enfim...Deves concordar que és um pouco diferente de todos nós.


VICTOR
Meigo? Disseste meigo? Tem cuidado... Não será uma palavra fraca para uma pessoa do sexo forte?


FERNANDO
E será que não se consegue ter uma conversa contigo sem que estejas a questionar constantemente o que se diz? Disse meigo e repito, creio que é esse sentimento que anda a confundir a malta, para quem tudo se baseia na agressão, na competitividade e na afirmação do ego machista.


VICTOR
E tu não és excepção...


FERNANDO
Em vários aspectos. Tenho mais instrução, (aproximando-se lentamente) movimento-me em meios onde a compreensão se estabeleceu para certo tipo de pessoas.


VICTOR
O tipo deles ou o meu?


FERNANDO
Pára, Victor. Não te faças de parvo, nem penses que eu o sou...(aproxima-se mais) Pessoas como tu e eu precisam constantemente de ternura, de sentir a mão de alguém e não só os chorrilhos de asneiras que ouvimos dias a fio...Sabes há quanto tempo não saímos daqui, que não ouvimos dizer, "que bom encontrar-te?" (Já junto a ele) Não tens saudades de abraçar alguém?


VICTOR
Tenho (afastando-se) Claro que tenho. Mas todos têm...Ninguém sai daqui há muito tempo.


FERNANDO
Queres dizer que quando vamos à sanzala, sim porque tu também lá vais quando o Capitão o exige, vais com a mesma disposição e finalidade do que nós? Se pensas que eu não sei as voltas que dás para não entrar na cubata da Maria, e do pacto que fizeste com ela para que ninguém desconfiasse de nada, estás enganado, Victor. Podes enganar o Capitão, toda a gente, mas não a mim, que tenho os olhos abertos para essas coisas...


VICTOR
Que estás tu a dizer para aí? Eu já fui com a Maria. Se não vou mais é porque não me apetece, pá! Não tenho necessidade de provar nada a ninguém...Além disso a Maria é casada com o Kwena e eu deixei de lá ir quando o soube. O Capitão não devia indícá-la a ninguém, ela só aceita porque é obrigada e porque tem medo de sofrer com as consequências caso se negue.

FERNANDO
Mas tu foste e segundo te ouvi dizer, gostaste.


VICTOR
(Com amargura) Que querias que dissesse? Que foi a melhor e a pior experiência da minha vida? Ninguém iria compreender o que eu senti quando o Capitão me obrigou a entrar naquele pardieiro...Era o calor...a cegueira total quando se entra no escuro...o cheiro acre e doce que havia no ar. O meu coração batia como se me tivessse perdido na mata e nunca mais fosse encontrar o caminho de regresso. Olhei em volta e, muito a custo, os meus olhos foram-se habituando ao ambiente...só uma pequena fogueira, quase apagada, servia de iluminação àquele pequeno espaço de terra batida. Olhei para os fundos, e lá estava ela...eu mal a via, deitada sobre uma espécie de cama...e nua...Avancei, usando de toda a coragem. Ela mexeu-se e abriu as pernas, como se dissesse: "Vem, é aqui o altar do sacrifício..." Sem deixar de a fixar, começei a despir-me...Tirei a camisa, as botas, baixei as calças...acabei por despi-las também...continuava imóvel. Sentei-me ao seu lado, de frente para ela. Não resisti, acariciei-lhe os seios pequenos e hirtos que me cabiam na mão. Era seda aquela pele, nunca tinha tocado nada igual...A pouco e pouco deitei-me sobre o seu corpo e pensei que me iria abraçar...mas não...os seus braços continuaram estendidos, afastados do corpo indiferente...nessa altura já o seu calor me tirara qualquer inibição com que eu poderia ter entrado ali...(Pausa) Mas nunca os seus braços se moveram...Nunca...a não ser quando do lado da cama irrompeu um choro de bébé, a reivindicar o peito de que eu me tinha apropriado...Mas o prazer já era mais forte que a consciência...e a Maria com o braço na mesma posição, foi embalando o filho, fazendo-me perceber que era assim mesmo, que não tinha importância...até ao fim...A vontade do Capitão era mais importante do que a sua vida...(Pausa)
Como vês, gostei. Gostei de ter percebido como tudo isto funciona, do que precisamos de fazer para sobreviver nesta terra que não é nossa. Por isso este meu ar distante e meigo porque não quero zangar-me ainda mais com o mundo.


FERNANDO
(Depois de uma longa pausa) Já é tarde...daqui a uma hora toca a alvorada. Creio que nos devíamos ir deitar...Hoje vou dormir o dia todo, para ver se me esqueço, por algum tempo, desta merda toda...