15.11.11

voz

Sabes o gosto na voz? Aquele sabor que fica preso no corpo quando o eco nos toca? É nesse detalhe que apuro os sentidos, que aguardo a chegada do teu corpo nu. Nesta espera contida, enquanto te vejo aproximar, enquanto te olho para te poder perscrutar, a minha pele aguarda, arrepiada pelos sentidos. Enches-me o olhar nas curvas perplexas do teu corpo. És luar pleno e, no eclipse deste instante em que os corpos se encaixam, somos o côncavo e o convexo. Somos... o nosso próprio desejo.

9.10.11

1 ano

Assim que a vi eu soube. Aqueles olhos grandes azuis eram como dois peixes num aquário de brandura. A delicadeza com que pegava na chávena do café, o sorriso terno com que brindou a empregada que lhe deu o troco, o embaraço perante o meu olhar que se fixou em tamanha beleza…era capaz de a fitar a tarde inteira, admirando-lhe cada passo, cada gesto imaculado. Havia nos traços do perfil um destino, um sítio onde me queria deixar ficar. Não resisti. Aproximei-me. Fiz-me conhecer. Absorvi-lhe cada detalhe e saboreie cada palavra, cada letra que trocamos nessa tarde. Nessa noite adormeci e acordei com borboletas na barriga. Apaixonei-me. Há muito que ninguém tinha aquele efeito sobre mim. Ela tinha acabado de me devolver o significado de saber amar uma mulher. Ela: a mulher que eu mais amo neste mundo. Tu, ao meu lado, esses olhos tão profundos e tão transparentes que me fazem mergulhar num “amo-te” que me faz sorrir o dia todo numa soma de 365 dias absolutamente felizes. Esperei por ti, sem saber. Um ano…o primeiro de uma eternidade, só nossa. Amo-te.



P.S.- Tu sabes que não sou escritor, que apenas te dedico em letras o meu amor. Sabes também que não sou amante, que apenas vivo em ti, a todo o instante.

6.10.11

amanheceres


[Acordei de um sono suave com o teu nome nos lábios.

Soou baixinho. No início nem abri os olhos e pensei que estivesse ainda a dormir.]

ser

Diria de mim que sou vento que sopra no abraço da tarde, que sou folha que paira no ar fresco da manhã, que sou estrela cadente que na noite se precipita para o azul do teu olhar. Poderia pensar de mim que sou um anjo com asas arrumadas, a tentar ser homem, a procurar preencher os meus nadas. Mas sei que sou palavra, escrita na folha imaculada, que sou verso sem sentido no anverso do teu corpo. Sei que sou letra tatuada na parede da tua alma, na pele despida do teu preconceito, na brisa que é a saudade, a eternidade. Depois, é nas ondas do teu corpo feito de mar que me encosto, que flutuo como barco de papel, com prosas descritas nas marés que navego. Sei que ser gente dói profundamente porque se sente no corpo por aqueles que sabemos ausentes.

26.9.11

[...]

É no espírito rectilíneo do desejo que sigo as curvas que me hão de levar ao fundo do teu corpo. A nudez é a mera timidez que esconde a insaciedade, a insanidade da loucura com que me vês. Derivo em cada vector como se fosse um qualquer desenhador de corpos nus, um escultor de massas opacas que em esferas de luz o teu corpo traduz. Não, não sou nada disso, sou tudo aquilo que inventas quando no teu pensamento me crias, me afagas e me guias pelas luxúrias infindáveis do teu regaço. Ribeiro, riacho onde me banhas como uma criança que em ti adormece, nesse sonho que não perece, apenas aguarda, amanhece.

14.9.11

entrega


Na curvatura do teu dorso, descubro o pôr-do-sol, expoente máximo do fim de um dia. Este silêncio calmo com que sabiamente me entregas o teu mais íntimo momento é o culminar dos sentires, dos desejos com que em mim te deitas, nua, como a lua que aos poucos nasce do horizonte. Há percursos por descobrir em nós, pequenas pregas de pele que sulcam suavemente o mar do teu corpo. É delicioso este instante, este em que me permito descer ao teu profundo ser. Nos lábios, comprimidos suavemente, retenho o sabor da tua pele, enquanto degusto com os meus olhos as linhas suaves com que se veste a tua silhueta. É um sublime prazer, esse de te poder ver, na forma mais intimista de te ter. Contemplar a beleza é tê-la ao alcance da mão e não querer tocá-la, por não querer deixar de olhá-la.

13.9.11

proeminência


Perfilo-me na estranha saliência que o teu corpo provoca no ar ao caminhar. Sigo-te como se fosse detrás do teu passar e vou absorvendo os detalhes, as curvas e os instantes em que te constróis como ponte oscilante sobre o vazio enorme do vale que se forma no meu corpo côncavo. Vem! Deixa-te tombar sobre a nudez do espaço como se fosses cometa em aproximação ao sol que te derrete os sentidos e te faz entrar em combustão. Anda! Vem colidir com o meu corpo despido numa erupção ancestral de momentos delirantes, em que ambos somos amantes, amados, fundidos, enrolados no turbilhão desta espiral galáctica pontilhada com o brilho dos teus olhos.