25.6.09

Estar aqui.

Estar aqui hoje, pensar e sentir desta maneira,
significa o quê, afinal?
A capitulação?
A elevação?
Nada disso. Significa que o tempo passa.
Significa olhar pela janela
e ver as pessoas a passar.
Significa que sentir é agora
e agora tem pouca importância.
Enquanto outros pavoneiam as penas
e gritam longe no bosque,
tu resistes, tu saboreias.
Não, não é temor, é sabor.

Sentir


*

A alma não tem olhos mas vê.
Vê certamente com o nosso coração e àquilo que vê, nós chamamos sentir.
E o sentir sustenta-nos. Mais do que manter-nos vivos, faz-nos viver.

.



*

Enquanto dançamos a nossa música

Os loucos cantam as suas certezas.

20.6.09

Flor


No brilho das cores de uma flor, deixo-te mil segredos por revelar. Entre as letras que te escrevo dia-a-dia, religiosamente, guardo o sentido que apenas a ti entrego, no silêncio da noite, por entre serra e mar, por entre a terra e o ar. As saudades estendem-se pela imensidão do oceano e, a ausência deixa-me a alma sombria, mas a esperança de que o regresso seja apenas questão de um segundo, dá-me o alento necessário para fazer brotar da profundidade dos sentidos as palavras que te alimentam, na distância. Os perfumes que mesclo, entre essências de vida, tentando reciar a formula mágica que me levará de corpo e alma para o teu mundo, exalam o gosto da tua pele, qual pétala desta flor que te ofereço. O teu corpo longíncuo, envia-me, em cada segundo o pulsar do teu coração, a tua alma, dentro da minha, traduz as letras que te emprestam para me escreveres, desencriptando os sentimentos que nelas embrulhaste com a seda do teu pensamento. Espero todas as noites e, de dia, contemplo esta flor sabendo que existes em mim como ela existe neste jardim secreto onde tu caminhas na beleza das noites e repousas no brilho dos dias, deixando o tempo passar, reduzindo as horas a segundos para que a saudade te comporte.

(Em) Noite de estreia



Baixou o pano. Voltei a ser eu. Eu feliz. Eu realizado. Eu com saudades tuas. Percorri aqueles corredores com um objectivo: o de te encontrar, o de te abraçar e o de me abraçares...sentires como foi importante estares ali, como a tua presença torna tudo mais fácil. Entre aclamações, palavras, flores e abraços amigos faltava-me o equilíbrio, a certeza. Entrei no camarim. Média-luz. E ali estavas tu. Tranquei a porta. Abraçamo-nos com uma força desenvolta e tive a certeza que estavas tão feliz como eu. De poucas palavras apenas te queria olhar nos olhos, observar a tua beleza e banhar-me na calmaria que me ofereces. Susurrei-te ao ouvido...e, então a penumbra invadiu o espaço, o perfume do incenso subiu em espirais de fumo suave e, a luz das luzes do espelho acesas tremiam agitando com elas as sombras dos nossos corpos já desnudos. Deixei os meus dedos escorrerem como água sobre a tua pele clara, percorrendo como o vento, cada curva, cada detalhe teu. A minha boca, deixou escapar a língua que pousou sobre o teu peito, desenhando sobre ti, como se duma tela se tratasse. As minhas mãos abraçaram a curvatura dos teus seios, com a luxúria e o desejo guardado por mil anos. A música tocava tranquila, misturando-se com os perfumes e essências. E ali continuávamos indiferentes à agitação exterior: eramos só nós, tu e eu. Os meus olhos prenderam-se dos teus, que se fecharam para sentir mais profundamente. O teu corpo, colado no meu, estremesseu de saudade, recordando os tempos em que já me tiveste naquele espaço, em que já fomos apenas um e nos amávamos até à exaustão na média-luz da Arte. Senti-te chegar em mim, senti o meu corpo entrar no teu, e a alma dissolver-se na tua como açúcar. Nesse instante, fechei os olhos e juntei-me a ti, para lá dos limites do mundo que apenas os olhos conhecem. Deixei que os sentidos nos levassem numa viagem atrás no tempo. As almas vibraram ao ritmo dos corpos, em expasmos de prazer, e estes, já exaustos, cederam... Suavemente os corações ganharam de novo uma pulsação suave, a música voltou para relaxar e distendê-los, enquanto as almas dançavam sobre o espaço vazio acima deles. Em noite de estreia amei-te, como há muito o tempo não me permitia, com a força da vida que o corpo carrega, com a intensidade da alma que há séculos esperava...por ti! Amo-te.

19.6.09

Corpo in(di)visível


Esta embriaguez de pensamentos consome-me há tantas horas entre mim e ti...

A pele da minha pele é já outra, o corpo do meu corpo ganhou marcas invisiveis. Só eu sei o que carrego quando me carrego: o segredo mais incrível esconde-se aí no pulsar acelerado do meu coração, bem junto à veia que me purifica e alimenta. Não sei como falar de ti sem falar de partidas. De chegadas. De viagens por dentro de mim. De viagens por dentro de ti.

E de lugares quase impossíveis que resgatamos a mapas imaginários, o amor pode ser um bilhete de ida. Sem volta. Elle se donne. A lui. Ele dá-se também e à velocidade do pensamento. Não há nada que me impeça de estar aí. Já.

E entre uma mão e outra sobra apenas esta distância invisível. O nosso é um só corpo. Indivisível: o meu no teu, no meu no teu. Onde começa o meu. Onde acaba o teu. Nem sei se é necessário sabê-lo. ou se é apenas indizível. Talvez tenhamos que inventar um nome. Um outro nome para este amor. Lá fora alguém fala de lugares longe, longe... beijos no cais. Recomendações. Malas. Malas. Malas. A carga toda da vida em malas que nos puxam para o chão. Transporto comigo apenas o que me serve. Para estar contigo basto eu. Para estares comigo bastas tu. Assim mesmo nus. A alma como tecto. Quente regaço. Casa. Casa. Corpo. Indivisível. Invisível. Indizível.


Talvez silêncio



...
Sim, o mais desesperante
Não é querer o impossível.
É não alcançar o possível.

...
Pára de procurar o que não se encontra.
Pára e sente.
Mas sente.
*