14.9.11

entrega


Na curvatura do teu dorso, descubro o pôr-do-sol, expoente máximo do fim de um dia. Este silêncio calmo com que sabiamente me entregas o teu mais íntimo momento é o culminar dos sentires, dos desejos com que em mim te deitas, nua, como a lua que aos poucos nasce do horizonte. Há percursos por descobrir em nós, pequenas pregas de pele que sulcam suavemente o mar do teu corpo. É delicioso este instante, este em que me permito descer ao teu profundo ser. Nos lábios, comprimidos suavemente, retenho o sabor da tua pele, enquanto degusto com os meus olhos as linhas suaves com que se veste a tua silhueta. É um sublime prazer, esse de te poder ver, na forma mais intimista de te ter. Contemplar a beleza é tê-la ao alcance da mão e não querer tocá-la, por não querer deixar de olhá-la.

13.9.11

proeminência


Perfilo-me na estranha saliência que o teu corpo provoca no ar ao caminhar. Sigo-te como se fosse detrás do teu passar e vou absorvendo os detalhes, as curvas e os instantes em que te constróis como ponte oscilante sobre o vazio enorme do vale que se forma no meu corpo côncavo. Vem! Deixa-te tombar sobre a nudez do espaço como se fosses cometa em aproximação ao sol que te derrete os sentidos e te faz entrar em combustão. Anda! Vem colidir com o meu corpo despido numa erupção ancestral de momentos delirantes, em que ambos somos amantes, amados, fundidos, enrolados no turbilhão desta espiral galáctica pontilhada com o brilho dos teus olhos.

12.9.11

entardecer

No buliço suave da agitação dos dias, seguem as minhas mãos vazias em direcção aos arrepios da tua pele. Não há noite em que não persiga o entardecer na constante busca do teu prazer. Não há dia em que queira a noite amanhecer na ânsia de despertar a maresia do orvalho salgado do teu corpo por mim molhado. Não haveria outra maneira de te amar se não esta fuga entre madrugada e tarde. Não poderia a noite impor-se ao dia sem entardecer num abraço morno. Neste espaço mouco acorda o silêncio perene de dois corpos que em delírio se pedem e ficam quietos, aguardando a madrugada, esperando que esta alvorada seja o nascer de mais um sentimento.

11.9.11

...


Mergulho profundamente na intimidade do teu corpo. Sustenho a respiração e nado no teu entorno. Sentes como agito as tuas águas, como nelas me banho, como nelas me deito. Há na fluidez das tuas linhas uma essência que me alimenta, nos contornos do teu corpo um encanto que se assemelha à floresta virgem, algo por desbravar que sustento na ponta dos lábios, prontos para te beijar a pele macia. É nas folhas que se abraçam ao vento que te envio escritos eternos, como páginas dum diário por escrever, como esculturas em pedra por desfazer. Emerjo para te respirar, como se fosses ar. E no sol vejo o brilho incandescente dos teus olhos que do céu não param de me olhar.

9.9.11

pintura


É em silêncio que invento o teu corpo, os traços que riscam as folhas, os tons que se mesclam na água pintando cada detalhe, cada nuance, na curva mais apertada das tuas ancas. Apesar de não haver ruído percebe-se no ar o teu gemido ao seres pintada suavemente pelos pincéis dos meus dedos. Esta cumplicidade entre pintor e pintura é o sublimar do erotismo: um eu em nós que se faz de carícias, de tons, de traços indeléveis que percorrem o corpo como linhas imaginárias que nos unem, nos abraçam e nos comprimem, um contra o outro. Neste bailado, o branco do papel fica matizado e nesse momento ofereço-te a alma que pinto no brilho da tua luminosidade. Percebo como me olhas, com a cumplicidade dos amantes que se tocam num perpétuo instante.

convexidade


Fico quieto na tentativa de não agitar a luz das velas. Quero que o teu brilho seja constante como o reflexo do sol na face da lua. Quero ver-te na plenitude da tua pele nua. Esta atracção gravítica que o teu corpo exerce sobre o meu faz-me girar em torno da tua beleza ímpar. Hoje quero ser o vento que em ti se vem abraçar. Este silêncio que não quebro, quero senti-lo como troca infinita de sentidos, que não preciso dizer ou escrever, apenas absorver. Quero olhar-te! Não preciso sequer de te tocar para saber a imensidão do teu ventre.
Fico imóvel, perante a magnitude do teu olhar. Quero naufragar-me em ti.

27.6.11

tu. sempre tu.


Não é fácil dizer tanto fugindo à trivialidade das palavras mas...escrevo palavras que pensam em ti. Encontrei-te no fim do arco-íris. És o lugar. Secreto. Concreto. Seguro. Cravaste em mim o nosso destino e a tua voz tatua-me as manhãs, as tardes, as noites. Aquelas que são nossas, muito nossas. Escuto o meu desejo e ele só de ti carece. Encontro a tua respiração a cada esquina. Tu sabes quem sou, como sou e aceitas-me assim sem questionar nem pedir mudanças. ( Gosto ainda mais de mim quando estou contigo.) Banho-me por completo na profundidade dos teus olhos, na serenidade que me oferecem. Precisava de alguém que tivesse as mesmas ideias, a mesma vontade, o mesmo fascínio pela arte do sonho e da vida...como eu! Encontrei-te, encontramo-nos. Juntos abandonamos as palavras, percebemo-nos nos silêncios, lemo-nos nos ecos da meia-luz, escrevemo-nos corpo a corpo. Estamos como se tudo estivesse connosco. De manhã vestimo-nos com o vento e o coração quase pára da já sentida saudade. O calor dos teus afectos circula-me no peito...Os meus olhos ficam cansados quando não te vêem para depois, ao vislumbrar-te, o relógio parar, as horas desistirem de bater e haver sorrisos nos olhos que se olham sofregamente. Gosto dos meus olhos a falar de ti, gosto que paires no silêncio do meu corpo. Corpo. O teu que pesa a medida exacta do meu desejo. És tu que me atravessas, tu! Juntos trazemos connosco poesia bastante para nos amarmos. É caminhar que quero, seguir-te e encontrarmo-nos todos os dias. Apaixonado por ti sempre. Perdidamente. Irrefutavelmente. Absolutamente.