Posso fazer uma pausa e dizer: olho-te. Não creio que qualquer figura de estilo lhe acrescentasse alguma coisa. Os meus olhos chegam para envolver o teu corpo e dizer-me que respiro e, depois, dizer simplesmente: olho-te. Não espero deste gesto um poema, para transcendência basta-me o teu corpo, ali, precisamente onde o meu olhar pousa. Que eu te escreva num momento diferente daquele em que te olho não chega a ser realmente importante. Escrevo apenas para conservar esse olhar, para o segurar no preciso momento em que existiu, para guardar com nitidez a imagem da tua nudez, para guardar para sempre as tuas palavras. E não me importa que o texto descanse, como naquele momento o meu corpo descansava, porque ambos, as minhas palavras e o meu corpo, te olham a distâncias diferentes, enquanto dizem apenas: amo-te.
25.1.10
Melodia de duas bocas
Olho-te ainda mais lentamente. Há qualquer coisa de sagrado neste acordar, neste corpo vivo, vibrante e nesta alma dormente. Há qualquer coisa de sagrado nesta vontade de te tocar. Aproximo a boca das tuas costas, molho os lábios com a língua e beijo-te, levemente. Rodopiaste na minha direcção, sorriste e disseste:
- Posso dizer uma coisa? Não sei mesmo se sem ti sou. A importância do que penso inscreve-se somente nestes espaços quase inexistentes entre ti e mim. Quase inexistentes...
Oiço-te e sinto dentro de mim a maravilha que nasce com a descoberta das coisas novas. Puxei-te para mim e entre os meus braços descansaste desta sombra. Brandamente foste contando da melodia que o teu corpo escreve só para mim. O mundo existe apenas no local solar para onde os teus olhos olham, do outro lado apenas existe uma sombra, gigantesca, sem sentido, sem sentidos, como se eu fosse cego sem essa luz, como se as minhas mãos perdessem o seu sentido primordial: o teu corpo.
Desviei os meus olhos para os teus. Ao longo do teu corpo morriam as estrelas. A noite partira.
E, lentamente, o sol rompeu no céu da tua boca.
21.1.10
20.1.10
Por vezes
Vieste

Vieste na hora exacta, com ares de festa e luas de prata.
Vieste com encantos, vieste com beijos silvestres colhidos para mim, vieste com a Natureza, com as mãos camponesas plantadas em mim.
Vieste de olhos fechados num dia marcado, sagrado para mim.
Vieste com a cara e a coragem, com malas, viagens, para dentro de mim.
7.10.09
Não digas

Não digas até amanhã,
Uma vez chega, por favor.
Não digas adeus, não o sussurres se quer,
Deixa-te estar entre os suspiros sonhados.Uma vez chega, por favor.
Não digas adeus, não o sussurres se quer,
Canto-te canções de embalar, se quiseres,
Canto-te cantos de amor, até que percas o medo.
Eu não quero dormir, não quero partir.
Não digas até amanhã.
Não sigas o passado,
Não te percas no futuro.
O passado não existe mais,
E o futuro ainda não chegou.
Observando profundamente a vida como ela é,
Aqui e agora, é que permanecemos equilibrados e livres...
Não digas até amanhã
Até porque o Universo,
Escolhe quem vamos encontrar na vida
E são as atitudes que decidem quem fica
E quem sai.
Tu entraste e não sairás nunca mais.
Ficarás para sempre numa eternidade,
Que é só nossa.
Entre-momentos

Gostava de escrever uma ode às nossas estimadas solidões,
Se não fossem estas sinónimo de uma difícil plenitude.
Cada vez mais desejo apanhar o pensamento
Quando ele acontece.
E quando isso acontece,
Gera-se um efeito que imagino similar
Ao surfar dentro de uma onda.
A paisagem é uma multiplicidade de pontos numerados
Que temos de ir ligando.
E quando se pensa
Reconhecer o desenho, ele muda.
Mas aqui ninguém nos ouve,
E posso dizer que o truque está em entrar nesses
Entre-momentos, quando um desenho deixa de parecer
Uma coisa e ainda não parece outra.
Conquista o agora, contaminámo-lo com a mestria
Das nossas dúvidas.
Seremos vírus de nós próprios.
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