25.1.10

Melodia de duas bocas

Olho-te ainda mais lentamente. Há qualquer coisa de sagrado neste acordar, neste corpo vivo, vibrante e nesta alma dormente. Há qualquer coisa de sagrado nesta vontade de te tocar. Aproximo a boca das tuas costas, molho os lábios com a língua e beijo-te, levemente. Rodopiaste na minha direcção, sorriste e disseste:
- Posso dizer uma coisa? Não sei mesmo se sem ti sou. A importância do que penso inscreve-se somente nestes espaços quase inexistentes entre ti e mim. Quase inexistentes...
Oiço-te e sinto dentro de mim a maravilha que nasce com a descoberta das coisas novas. Puxei-te para mim e entre os meus braços descansaste desta sombra. Brandamente foste contando da melodia que o teu corpo escreve só para mim. O mundo existe apenas no local solar para onde os teus olhos olham, do outro lado apenas existe uma sombra, gigantesca, sem sentido, sem sentidos, como se eu fosse cego sem essa luz, como se as minhas mãos perdessem o seu sentido primordial: o teu corpo.
Desviei os meus olhos para os teus. Ao longo do teu corpo morriam as estrelas. A noite partira.
E, lentamente, o sol rompeu no céu da tua boca.

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