A vida, às vezes, mostra-nos a traição de se ser humano. Prega-nos partidas. É nestas alturas em que se dá um flashback na memória e revemos tudo o que ficou para trás. 40 anos de memórias. O número de anos em que a amizade de Carlos Castro sempre me foi certa. Ele, dotado de uma humanidade notável, teve a morte mais desumana. Lembro-me de o ter conhecido nessa Luanda longínqua, eu fui cantar à emissora nacional, ouviu-me e quis-me conhecer. Acabamos por nos falar, finalmente, no Teatro Avenida de Luanda. Ele tinha já nessa altura uma grande sede de vida, uma grande vontade de mudança, de abertura de horizontes e mentalidades. Abertura essa que lamentava que o pai nunca tivesse percebido, atirando-o sozinho e inexperiente para a vida e negando-o como filho. Era uma grande mágoa do Carlos, sempre se sentiu só. Ainda hoje. Começou a gostar de mim de um modo como eu nunca poderia corresponder, compreendeu, tudo passou e a amizade que até ali tinhamos construído manteve-se sem ressentimentos. "Eu não me apaixono por invólucros, apaixono-me por pessoas." - sempre disse. O Carlos era um apaixonado dramático, sempre deu muito por amor, amou muito sem ser correspondido, amou quem não o merecia. Mas nunca me disse arrependido, ele gostava de viver e de ser assim. Lutou muito por ser quem era hoje, quem é hoje! Não se limitou a sonhar, ele fazia por acontecer. Em Luanda escreveu sobre as ladeiras da vida, sobre romances falhados, sobre discriminação sexual e escreveu para mim a letra "Feitiço de Tinta" sobre o despertar da sexualidade feminina, na altura inédito, polémico mas que nos fez vencer o Festival da Canção de 1970 (salvo erro). Foi talvez o primeiro reconhecimento público do Carlos, sentia-se feliz pela primeira vez depois de ter sido expulso de casa por uma família demasiado conservadora que nunca compreendeu um filho formado à base da fantasia dos filmes e dos livros, no fundo, os seus únicos verdadeiros amigos. Sempre o disse também. Ele sabia-o e sabia-se infeliz. Mas não era preciso dizer, notava-se no olhar fechado. Era meu vizinho no "Treme-treme", sempre amigo, bom-ouvinte, a quem eu confiava ilusões e desilusões, batalhas e guerras por terras africanas, amores e desamores. Ele nunca cobrou, sempre esteve lá. Em 1975 regressou a Portugal apenas com a roupa que trazia no corpo...tornou-se jornalista, cresceu, evoluiu, delimitou o seu território e construiu o seu império. Já em Lisboa o Carlos continuou a ir ver-me a todas as peças de teatro, todas! E dele sempre saiu uma palavra gentil e amiga, ainda que tecesse a sua crítica quando achava que eu poderia dar mais "aqui ou ali". Admirava-o por ser assim, queria sempre a crítica dele pela sinceridade que muitos evitam para não ferir susceptibilidades. Sempre preferi frontalidade a falsidade e hipocrisia. Ele também. O Carlos não era um amigo com quem estivesse ou falasse diáriamente, tinhamos vidas muito distintas, movidas em meios diferentes, mas ambos sabiamos que "estávamos lá". E é verdade. Ele esteve "sempre lá" em todos aqueles momentos em que reclamamos urgentemente um ombro amigo. Ele não era uma pessoa de circunstância, uma daquelas com quem só partilhamos os bons momentos. O Carlos era, efectivamente, um Amigo, um dos verdadeiros. Homosexual assumido, no entanto contra a adopção por parte de casais gay, sempre lutou por tudo o que acreditava, pela igualdade de direitos, pela não discriminação de pessoas pela sua sua orientação sexual. Um homem de causas, um lutador por excelência, solidário e de muito bom íntimo. Experiente mas ingénuo, racional mas emocional, a sua procura incessante pelo amor custou-lhe a própria vida. A ti Carlos, eterno e respeitado amigo, um poema de José Gomes Ferreira porque sei o quanto gostas da sua obra...
"Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados,
Fartos do mesmo sol, a fingir de novo todas as manhãs,
Convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite
Para o ritual do Grande Desfazer:
"Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se
Em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
Fatos escuros,olhos de lua de cerimônia,
Viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes.
Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
Numa lassidão de arrancar raízes...
Primeiro, os olhos... em seguida, os lábios...
Depois os cabelos... a carne, em vez de apodrecer,
Começaria a transfigurar-se em fumo...
Tão leve... tão subtil... tão pòlen...
Como aquela nuvem além vêem?
Nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis."
Pudesse eu ir a Nova Iorque prestar-te a minha sincera última homenagem. Mas por lá descansas, na cidade dos teus sonhos e onde as tuas cinzas ressuscitarão dando-te nova vida. Descansa em paz querido amigo. Obrigado.
Posso juntar-me a ti?
ResponderEliminarTremi.
ResponderEliminarJá me recomponho.
Carlos ...
ResponderEliminarDifícil comentar...
Bela a tua homenagem.
Maria