“Treme-treme” assim se chamava o prédio alto, destacado de todos os outros mais baixos, onde morei nos meus tempos de serviço militar em Luanda! Em 1971 fui “convocado” para o Ultramar e os pais (galinha!) reformaram-se e foram atrás do menino! Dinheiro não havia em fartura e, portanto, aquele edifício colonial construído para habitação económica e com fim a alojar os militares nos seus tempos de férias foi o nosso lar (dos meus pais e meu quando voltava, ainda que temporariamente, do mato) durante quatro anos. Falo hoje dele porque em conversa descobri que a mãe de uma querida amiga e ela inclusivé (apesar de bebé) também lá morou e na mesma época. Éramos vizinhos e não sabíamos. A vida tem destas coisas maravilhosas!
Eu morava no 12 J daquele prédio do Largo do Infante D. Henrique…mais conhecido pelos jovens de então como o Baleizão, mesmo defronte à marginal, com uma belíssima paisagem que serviu de fundo a momentos inesquecíveis da minha juventude. Era minha vizinha também a minha eterna Vera Mónica, na época Verónica (seu verdadeiro nome) que chegara também a Luanda com a mãe, vinda directamente do Rio de Janeiro à procura de uma vida melhor. Grandes amizades se fizeram naquele “Treme-treme”. Carlos Castro (que escreveu para mim as três letras com que concorri ao Festival da Canção de Luanda entre 1972 e 1974 e com as quais ganhei o primeiro prémio), Vasco Rafael, Rui e Salomé Cardinali, José Carlos (o mais genial estilista português), Nelson Duarte (que me acompanhava à guitarra em cantorias pelos mais variados locais da Nova Lisboa, Sá da Bandeira, Luanda, etc) eram outros dos vizinhos. Na altura e tal como eu, ilustres desconhecidos mas que, a pouco e pouco, começavam a dar cartas numa Luanda de longe mais evoluída que a Metrópole. Aliás, ali perto estava o primeiro hipermercado que os portugueses residentes em Luanda veriam, muito antes de Portugal sofrer igual modernização.
Mais tarde aquele prédio começou a ser apelidado de “Treme-treme”! Porquê? Tinha a ver com a utilização que era dada a alguns dos apartamentos habitados por “profissionais do sexo”. Quem pretendesse descrição e qualidade, sabia que o “Treme-treme” era o lugar. Muito nos riamos, eu e a Vera, namorados e novíssimos na época, tão novos ao ponto de brincar com as tais “profissionais”, fazendo chamadas insistentes para os seus apartamentos a marcar supostos encontros. Outras vezes batíamos às suas portas e corríamos pelas escadas abaixo até alcançarmos um lugar seguro onde pudéssemos soltar largas gargalhadas!
Ter sabido hoje, da coincidência que atrás referenciei fez-me recordar uma série de momentos….inevitável! Lembro-me de uma vez estar com um grupo de amigos no então Café Baía que ficava junto do “Treme-treme” e onde todos os jovens se encontravam para grandes noitadas que, um exuberante casal colocou altifalantes na varanda do quarto onde decidiu passar umas longas horas de cama com o microfone ao lado. Resumindo: toda a gente ali nos arredores testemunhou o seu prazer. Mas também era daquele mesmo Café que se assistia todas as noites a um espectáculo magnífico de luzes na Marginal com os reclames multicolores que num piscar constante se projectavam nas calmas água da baía enquanto no alto e em tons de amarelo a Fortaleza de S. Miguel vigiava a baía, protegendo a cidade. Os automóveis passeavam-se como pirilampos e muitos se deslocavam para a ilha onde as marisqueiras e bares aguardavam com as suas lagostas, camarões, lagostins, sapateiras, outros crustáceos e moluscos a chegada da clientela noctívaga e não só.
Luanda dormia acordada, Luanda era uma cidade que não dormia. Loucos anos 70 naquele paraíso quente e tropical! Mas nem tudo eram rosas…
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